Caro amigo

Por aqui as preocupações são muito mais, literalmente, terra a terra. Em Lisboa, hoje, escolhe-se o presidente da Câmara. E o país pára para ver se ganha o PS ou o PSD e logo à noite, por certo, os telejornais vão fazer grandes emissões em directo, como se Portugal inteiro estivesse preocupado com a autarquia lisboeta. Hoje, aqui, como ontem, é tempo de deitar o milho e o feijão à terra.
Em Cabo Verde, chegados a Julho, começa a azáfama dos campos. São três meses de trabalho: primeiro limpar os terrenos, agora abrir os buracos na terra ressequida, deitar lá para dentro, em cada cova, um grão de milho e um feijão, e esperar que a natureza cumpra o seu papel. Se ela o fizer, antes do Outono haverá milho e feijão para todo o ano.
Num país onde raramente chove é curioso ver os cuidados e os anseios que trazem a época das chuvas. Por estes dias a comunicação social não se cansa de alertar para situações que podem ser agravadas com as chuvas. Uma casa que ameaça ruína, um muro que pode desabar, uma vala que está entupida de lixo e pode provocar inundações. As nuvens já ameaçam, os dias andam quentes e húmidos, o tempo está, é verdade, a mudar.
E pelo interior é ver agora, mesmo das estradas, por todo o lado, aqueles pontinhos de cor, empoleirados nas escarpas mais inimagináveis, nos serros mais íngremes, a deitar as sementes à terra. E porque é pouca a que deixa nascer alguma coisa nenhuma é de mais para ser aproveitada. Semeia-se milho até nos redondéis das rotundas e mesmo a terra batida de um campo de futebol se torna apetecível, como te disse há tempos.
Passei lá hoje, para os lados de Pedra Badejo. O campo ainda está intacto, as balizas de ferro de um lado e de outro, à espera do maior relvado que alguma vez se possa ter sonhado.
Anseio por vê-lo, daqui por uns meses, com uma bela sementeira de milho, quase a chegar à trave. E nessa altura, se puder e se me deixarem, hei de parar e ficar ali, com os atletas/agricultores, a comer uma bela maçaroca assada.
É assim caro amigo. Hoje, quando a preocupação de Portugal será ver qual dos “12 magníficos” se senta na cadeira do poder, por estes montes e vales será semear milho e feijão e se calhar jogar, antes, uma partidinha de futebol.
Que felizes! Não viram os “12 magníficos” (ou “12 indomáveis patifes”) a andar de bicicleta para dizer que há carros a mais em Lisboa, como se nós não soubéssemos, não os viram a fingir-se de cegos para dizer que há entraves a mais nas ruas, como se nós não soubéssemos. Não viram as mesmas promessas desde os últimos 20 anos pelo menos, as mesmas conversas, criticas, soluções, propostas, ideias.
Não viram nem querem saber, claro está. Porque felizmente não são obrigados a levar com esses discursos. Felizmente também para os portugueses que tudo acaba hoje.
Hoje, quando por aí todos estiverem suspensos na eleição do próximo presidente da Câmara de Lisboa, os cabo-verdianos andarão suspensos nas encostas das montanhas, a semear o sustento para o próximo ano. E juro-te que hoje só pedem uma coisa: venha a chuva! Cada gota valerá muito mais do que qualquer um dos 12. Estou com eles. Preocupa-me muito mais saber se hoje chove do que quem vai ganhar a câmara de Lisboa.

Um abraço cabo-verdiano

Fernando Peixeiro


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