Pirocho e os outros
Publicado por Fernando Peixeiro 9 Março 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Paulo Jorge, 15 anos, mora num dos bairros degradados da periferia da capital cabo-verdiana e sonha ser jogador de futebol, como Simão Sabrosa. Anda na escola mas o seu mundo gira à volta de uma bola, nova desde ontem. “Pirocho”, o nome por que é conhecido, é o mais popular elemento do grupo Blitz Club, uma associação juvenil de Vila Nova, bairro pobre da Cidade da Praia, com problemas de álcool, droga, e onde o absentismo escolar é elevado.
Mas “Pirocho” é assíduo e, coisa rara na sua idade, até fala um português perfeito quando me diz que quer continuar a estudar e que o seu sonho é ser um grande jogador de futebol.
Talento não lhe falta. Devias vê-lo ontem de manhã, no campo de futebol de cinco da escola, com uma bola nova, a fazer malabarismos, daqueles que só os profissionais sabem, como despir duas camisolas e voltar a vesti-las com a bola presa entre a nuca e os ombros, sem nunca as deixar cair. E ela, a bola, foi lá parar sem que lhe tocasse com as mãos e lá ficou muito quietinha o tempo todo.
Ontem foi um dia especial para Paulo Jorge e para mais meia centena de jovens de Vila Nova, do Blitz Club, que receberam bolas, camisolas e equipamentos vários desportivos, oferecidos pela cooperação portuguesa.
Não sendo um grande donativo é acima de tudo um gesto simbólico, como disse o responsável pela cooperação portuguesa aqui em Cabo Verde. É verdade, não tem um grande valor material mas “tem um valor social enorme, pelo que representa para os jovens de Vila Nova”, nas palavras do presidente da associação Blitz Club.
A Blitz nem sequer tem sede, e os responsáveis reúnem-se na casa de um deles, mas conseguiu um acordo com a escola do bairro, com o sugestivo nome Paz e Amizade, que lhe franqueia as portas a qualquer hora, incluindo o recinto desportivo.
É ali, ou no campo de futebol que fica perto, agora em obras, que os jovens do Blitz treinam, e de onde já saíram grandes jogadores, alguns até na selecção de Cabo Verde.
A cooperação portuguesa não fez grande investimento, é certo. Foram menos de uma centena de camisolas, uma dúzia de bolas, uns marcadores de campo para treinarem, umas bandeiras… enfim… meia dúzia de euros…
Mas euros que a Blitz não tinha para comprar aquele material e por isso foi bem bonito o gesto português. Como é bonito que um grupo de jovens se junte para tentar evitar que aqueles miúdos se metam em caminhos perigosos, coisa fácil em bairros como de Vila Nova.
Ontem, bem cedinho, aqueles miúdos todos juntaram-se na escola e bateram muitas palmas à oferta, já com as camisolas vestidas.
O brilho no seu olhar e as caras sorridentes valem muito mais do que os poucos euros que a prenda custou. Tanto que não têm preço. Gostava de viver todos os dias momentos assim!
Um abraço
Fernando Peixeiro



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