Patinhas firmes

Caro amigo

Nas minhas voltinhas pelas ilhas cabo-verdianas tenho visto burros em quase todo o lado. Na Boavista são aos magotes mas também os encontras em Santiago e mais ainda em Santo Antão, onde até parece que servem de refeição, não sei se depois de cumprido o serviço ou ainda tenrinhos. É de burros que te falo hoje.
Burros mesmo burros. Não azémolas, bestas de carga, bestas quadradas, bestuntos, não cavalgaduras, quadrúpedes, asnos, néscios, tolos, estúpidos, imbecis, parvos. Falo de burros mesmo burros, jumentos, nome por que é conhecido vulgarmente o mamífero perissodáctilo da família dos equídeos. Mais pequeno que o cavalo, mais fraco do que a mula e umas orelhinhas muito jeitosas, próprias para enxotar as moscas.
E falo deles porque eles andaram aqui, por estes dias, na boca de toda a gente. Boca é maneira de falar. Ou seja, é isso mesmo, falou-se muito deles. Imagina que os dois maiores partidos convocaram não sei quantas conferências de imprensa para falar deles.
No fim confesso-te que não entendi muito bem tanto palavreado. Pareceu-me que o que estava em causa era uma questão cultural, uma tradição, enfim o triste fado dos animais, o lugar onde, certamente por castigo, deveriam ficar aqui nas ilhas. Mas era muito mais do que isso.
Tudo começou há uns dias quando o presidente do PAICV, que por acaso também é o primeiro-ministro, falava num comício de apresentação dos cabeças de lista do partido no concelho de Santa Catarina, aqui na ilha de Santiago. A propósito de uma suposta desordem por parte de militantes do maior partido da oposição, o MpD, o homem citou a frase “porque os burros devem ser deixados na ladeira”.
Ora aí está! Eu se fosse burro também não gostava! Na ladeira? Mas alguém se sente confortável numa ladeira? A palavra ladeira lembra logo um local inclinado, íngreme, inóspito, desagradável. Tu quando estás numa ladeira queres é descer ou subir, para um local plano. Na ladeira não tens um apoio igual para duas pernas quanto mais para quatro patas. Cansas-te mais. Já te imaginaste a dormir numa ladeira? Caramba!
E o que é que aconteceu? O MpD tomou a dor dos burros, veio logo dizer que o presidente do partido no poder não podia dizer aquilo, que era um insulto. Depois veio o PAICV explicar que nada disso, aquilo não era nenhum insulto, e depois o MpD exigiu outra vez que o presidente do maior partido pedisse desculpas, e este veio dizer que a frase descontextualizada até podia parecer forte mas que não era essa a intenção.
Ai não? Foi “insultuosa para os mais de 27 mil militantes, amigos e simpatizantes do MpD”, disse o presidente deste partido.
Não sei. Mas eu acho que os burros não devem ser deixados na ladeira, antes num estábulo de chão direito e palha fresquinha.
Eu se fosse burro não queria ficar na ladeira e pronto. Final. Mas se calhar também não é caso para tanta celeuma. Por aqui, ou por aí, ou por onde os houver, e ainda que as suas vozes não cheguem muito longe, os burros que fiquem onde quiserem.
E posso dizer-te porque já os vi muitas vezes. Por todo o lado. Campo, cidades, junto à praia, à sombra das árvores, ao sol a tostar. Patinhas firmes. Na ladeira só se forem burros!!

Um abraço
Fernando Peixeiro