Paris Dakar a pé

Caro amigo

A cena passa-se na famosa praça Jemaa-el-Fna, em pleno centro de Marraquexe, Marrocos. Ao cair da tarde o lugar é uma babel que atrai milhares de turistas, como Raimundo, que não resiste a tirar uma fotografia a um encantador de serpentes. Ele, o encantador, está lá para isso. E mal soa o disparo estende a mão, a exigir uma moeda. Uma não, que é pouco. Raimundo faz-lhe a vontade mas o encantador não fica satisfeito, quer saber quem é aquele turista tão sujo, tão rasgado, tão cansado. Raimundo, num perfeito francês, conta-lhe que veio de Paris, a pé, e que vai até Cabo Verde. O encantador espanta-se e depois encanta-se. A moeda, faz questão, volta para o bolso de Raimundo.
Encontrei Raimundo Querido esta semana na praia de Quebra Canela, aqui na capital de Cabo Verde. Ainda molhado, acabadinho de sair da água, senta-se na areia e conta-me a sua história, de quatro meses e mais de seis mil quilómetros.
Começa no ano passado. Raimundo, Mundinho, vive desde muito novo em França, onde já participou em filmes, como duplo, e faz anúncios publicitários para marcas de ténis. No ano passado achou que era altura de contribuir para o país onde viveu até aos 11 anos e propôs-se fazer um filme promocional das ilhas. Tudo acertado, só precisava de um patrocínio para a viagem de avião Paris-Praia.
Mas apesar das promessas o apoio de Cabo Verde não chegou. E um dia, farto de esperar, decidiu que assim sendo viria da mesma maneira mas a pé. Era simples: França, Espanha, Marrocos, Mauritânia e Senegal. E depois aí, avião para a Praia.
E pronto. A 20 de Setembro meteu pés ao caminho, acompanhado de Daniel Girondeaud, companheiro de trabalho, amigo, e suficientemente louco para embarcar numa aventura assim. Além do mais Daniel não conhecia Cabo Verde.
Em termos mediáticos a ideia até era chamativa. Seria um Paris-Dakar a pé, com os dois a fazerem as contas para chegar à capital do Senegal na mesma altura que o raly. Mas as contas saíram furadas. Porque o raly este ano foi cancelado e porque quando os caminheiros chegaram à fronteira com a Mauritânia tinham um aviso do governo francês para não entrarem no país.
Fez-se o que se pode, ou seja Paris-Dakar menos Mauritânia. E quatro meses de experiências humanas inesquecíveis, especialmente em África, onde Mundinho e Daniel quase não usaram as tendas, porque por onde passavam, e depois de contar o que estavam a fazer, eram recebidos como só as pessoas pobres sabem fazer.
“Levavam-nos para casa deles, davam-nos de comer, davam tudo o que tinham e não tinham. E não aceitavam nada em troca. Dinheiro nem pensar. Às vezes para os ajudar ia com eles aos mercados e fazia eu compras”, contou-me Mundinho.
E de resto era caminhar, caminhar. Alguns dias fizeram 70 quilómetros mas a maior parte das vezes entre 50 a 60.
Se corressem seria melhor do que a história de Forrest Gump. Mas andaram. E não foi fácil. Os pés encheram-se de feridas, as unhas partiram-se. Espanha foi o pior, porque depois os pés habituaram-se. E hoje, pelas praias de Cabo Verde, estão como novos, planeando ir a todo o lado, a todas as ilhas, a pé, para assim completarem os 600 quilómetros que a insegurança na Mauritânia não deixou.
Os dois regressarão a Paris um dia destes. E Mundinho garante que com as imagens para o tal filme promocional. Só não sabe se desta vez o governo de Cabo Verde os apoia nas passagens aéreas. Ou se terão de ir, outra vez, a pé.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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