Caro amigo
Já te falei aqui das tartarugas marinhas que por esta altura chegam às praias de Cabo Verde para desovar. E também te disse que são espécies em vias de extinção, que demoram 20 anos a chegar à idade adulta, e que em Cabo Verde em vez de as protegerem preferem matá-las. Só não te disse como o fazem. É qualquer coisa para maiores de 18 anos, e mesmo assim não para todos.
A cena contada não terá grande impacto, por muito bom que fosse o narrador. É que, caro amigo, não há palavras para descrever o acto de barbárie que é a matança das tartarugas, um dos piores que já me foi dado ver, se não o pior.
Todas as noites, por esta altura, e apesar de alguns meritórios esforços de um punhado de gente que o querem evitar, há dezenas de pessoas nas praias de Cabo Verde à espera de tartarugas para as matar de seguida.
Apesar de ainda não ter conhecido uma única pessoa que me dissesse ser apreciador da carne do bicho, a verdade é que em pleno século XXI há gente a esgatanhar-se para ver quem é o dono da tartaruga e lhe deita a mão mal ela sai da água, nem que para isso tenha de passar uma noite inteira nas praias do país.
A coisa é fácil. Viras a tartaruga ao contrário e depois até podes ir dormir para casa descansado que ela dali não sai, porque não consegue virar-se.
Se a captura é de noite, quando ela vem desovar, a matança é de dia, à vista de todos e para gáudio de muitos. Virado o pobre animal, atam-se as patas para que não leves “uma chapada” e depois pura e simplesmente mete-se a faca entre o corpo e a carapaça e começa-se a abrir o bicho que, naturalmente, está vivo.
E continua assim vivo quando se chega ao fim do corte. É, imagina, como se estivesses a abrir uma lata de feijão com um abre-latas. Depois de tudo cortado abre-se a tartaruga e começa o trabalho de a esventrar. Tira-se primeiro os ovos e segue-se por aí, rasgando, cortando, puxando, entre golfadas de sangue e o bicho sempre a mexer as patas e a cabeça, até essas partes serem também cortadas.
Acredita que mesmo assim o coração fica a bater. E quando já nada resta além da carapaça é entre risos que os matadores pegam no coração da tartaruga e o exibem, ainda a bater alguns minutos.
Dirás tu, e os caracóis? Não são também eles postos ao lume ainda vivos? E as lagostas? É verdade. Mortes horríveis e silenciosas, pelo menos para os nosso ouvidos. A tartaruga também não emite sons, apenas se ouve o seu respirar, enquanto se vê a faca entrar-lhe no corpo e ir rasgando, abrindo, como se fosse uma lata de conserva.
Não sei se pelo tamanho, muito maior do que uma lagosta ou um caracol, se pelo facto de estarem em extinção, se por ser um acto completamente desnecessário e bárbaro, a matança de uma tartaruga foi das coisas mais absurdas que me foi dado a assistir desde que estou aqui em Cabo Verde.
Não aconselharia a ninguém e muito menos a crianças, embora aqui seja um espectáculo popular, felizmente para uma minoria.
E sabes o que me custa mais? É saber que a esta hora, em qualquer praia, haverá uma tartaruga de carapaça virada a sentir uma faca a começar a cortar-lhe as entranhas.
Um abraço
Fernando Peixeiro


Vi as imagens na RTP África (ontem) e fiquei horrorizado. O caminho é divulgar esta babarie pelo mundo (outras TVs, sites, blogs). A vergonha de um governo insensível deve ser exposta ao mundo .È a melhor arma para por um fim nisto.
Recomendo o projeto TAMAR : http://www.projetotamar.org.br
como e que alguem consegue fazer isso com quem nao lhe fez mal nnhum?