Os cães e os outros
Publicado por Fernando Peixeiro 14 Abril 2007 em Cabo Verde.Amigo António,
dirás tu se esta minha carta de hoje tem alguma coisa a ver com os cães de que temos falado por estes dias. Não terá porque te quero recordar um rapazinho de que já te falei aqui há tempos, o Zezinho, um miúdo pobre que sempre me pede algo para comer, de forma insistente às vezes, mas sempre educado.
O Zezinho aparece por aqui muitas vezes a tocar-me à campainha.
Quase sempre para lhe arranjar alguma coisa para comer, mas de tempos a tempos pede-me uma moeda. Outro dia, ao pegar numa moeda de 100 escudos para lhe dar, perguntei-lhe se aquilo era para gastar “mal-gasto”.
- O que é mal-gasto?, perguntou-me.
- Em chocolates, respondi.
- Chocolates? Os chocolates fazem mal à barriga. Este dinheiro dá para eu comprar um pão para mim, outro para o meu avô, outro para a minha avó e um para o meu irmão. Respondeu magoado.
Acreditei no puto e confesso que gostei um pouco mais dele por essa resposta. Foi por isso que esta semana quando saía de casa para ir ter com uma amiga que estava a beber café no hotel aqui em frente de casa, e ele me rondava a porta, o levei comigo.
Inexperiência ou inocência da minha parte. Mal entrámos no hotel, um dos gerentes que por ali andava expulsou-o de imediato. E de nada valeu ao miúdo dizer que estava comigo. E de nada valeu eu dizer que o miúdo estava comigo.
Demorei um minuto no hotel. À saída, o gerente esperava-me. Explicou que não podia deixar os miúdos entrarem por ali, que se entra um outros também o querem fazer, e qualquer dia estão a pedir dinheiro aos clientes que estão na piscina e que, naturalmente, não querem ser importunados. “Se os deixo entrar todos qualquer dia fecham-me o hotel”, assegurou-me.
Demorei um minuto nesta conversa. O puto olhava, de longe, e quando me aproximei vi que estava a fazer um esforço para não chorar. Outro erro meu quando o tentei acalmar. Não aguentou e foi desfazer-se em lágrimas para debaixo de uma palmeira. Tanto que outras crianças que passavam o rodearam, a perguntar-lhe o que se passava.Deixei-o. Dois erros já bastam.
Hoje, quando almoçava num dos restaurantes mais conhecidos aqui da Praia lá estava ele, a espreitar, do lado de fora. Cinco segundos, se tanto. Um dos empregados correu com ele.
Hoje não terá sofrido grande humilhação, pareceu-me que é hábito correr-se assim com ele e com outros como ele do restaurante. E nós, caro amigo, nestas coisas somos como os cães: se nos estão sempre a maltratar, acabamos por nos habituar.
Mas diz-me lá tu: que pessoas estamos nós a criar? Que educação é esta? Deixa traumas? E tem alguma coisa a ver com os cães?
Um abraço, sem dúvida
Fernando Peixeiro



0 Responses to “Os cães e os outros”
Please Wait
Leave a Reply