Os barcos… ah… os barcos sempre me fizeram feliz
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 1 Julho 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo,
não vou hoje, domingo, contar-te histórias tristes. Do Codé ou da Rosa, da poluição ou do vento de leste de Cabo Verde. Porque hoje é domingo vou falar-te de dois barquinhos que me deixaram muito contente. E não! Não te venho propor mais um negócio. Prefiro dizer que, tal como à raposa as estrelas sempre a fizeram feliz, a mim os barcos… ah!… os barcos sempre me fizeram feliz!
Não penses que fiquei louco de repente. É que hoje, caro amigo, entram em funcionamento aqui nas ilhas dois belos, luzidios e lustrosos “catamarans”, que prometem levar-nos (os cabo-verdianos e eu, claro está) num instante a qualquer ilha.
Lembras-te de, há dias, ter falado da odisseia que foi tentar encontrar uma passagem em qualquer barco que me levasse à ilha do Maio, aqui a uma hora de distância? E de ainda hoje ver o Maio por um canudo? Pois bem, um dos barcos faz este domingo, precisamente, a sua viagem inaugural entre Santiago, onde estou, e a ilha do Maio. Em 30 minutos!
Os barcos já cá estão, para quem os queira ver, e não se trata de mais uma promessa, do género do campo de futebol que devia ter relva sintética em Maio e que, agora no início de Julho, o único verde é o da camisola de um trabalhador que está a construir um muro.
A iniciativa é de uma empresa privada de transportes aqui da ilha, a Moura Company, e vai ligar com um barco estas ilhas aqui à volta: Santiago, Maio, Fogo, Brava, Boa Vista e Sal. O outro barco ficará para os lados do grupo oriental, a ligar São Vivente a Santo Antão e a São Nicolau.
Por terras cabo-verdianas os novos barcos surgiram nas primeiras página dos jornais e abriram noticiários de rádio e televisão, dado que é notória e confrangedora a falta de ligações decentes entre o arquipélago.
Novinhos em folha, cómodos e rápidos, adaptados para as águas de Cabo Verde, os “catamarans” prometem, e eu acredito que vão cumprir, fazer em metade do tempo as actuais, quando existem, ligações.
Só para ficares com uma ideia, uma amiga de cá foi há duas semanas para Santo Antão, de barco. Pois a viagem durou, só entre Santiago e São Vicente, 18 horas. Ao que parece poderia ser mais rápida, mas os donos do barquito preferem ir mais devagar para poupar combustível.
Pois bem, a Moura Company promete ligar as duas principais ilhas de Cabo Verde em apenas cinco horas. Não me enganei, é mesmo cinco horas. A diferença é a diferença entre uma viagem chata, que ninguém quer fazer, e uma viagem agradável, na mira de golfinhos e baleias. A diferença entre o martírio e o prazer (se bem que há quem defenda que martírio pode ser prazer), a diferença entre sair de manhã e ir almoçar ao Mindelo ou sair de manhã, comer o que se levar, e dormir num barco sem condições para se ir sequer sentado (segundo essa minha amiga).
E depois há outra diferença substancial: a viagem de avião, de uma hora, custa, a preços daqui, quase 19 contos (mais ou menos 180 euros), a de barco custa 4.800 escudos (menos de 40 euros).
E tudo isto acontece assim. De repente. A Moura não andou por aí a apregoar que ia trazer barcos, trouxe e pronto. Não se andou a promover, a fazer promessas, a apontar para um mês qualquer mais facilidades nas deslocações. Ficou, e muito bem, caladinha, e quando a coisa estava certa disparou: daqui por dois dias… barcos à séria, para tirar esta gente do isolamento.
Por estes dias muita gente tem felicitado a empresa. Eu associo-me a eles. Até parece uma “moura encantada”! Não parece?
Um dominical abraço
Fernando Peixeiro


