Os 50 quilómetros de um guerreiro Maasai
Publicado por Fernando Peixeiro 8 Maio 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Sei bem o que é isso dos apertos de mão propagandísticos que, imagino, há em todo o mundo. Porque um homem é bem educado já respondi a algumas mãos estendidas e sorrisos rasgados de pessoas que querem o meu voto e, porque um homem tem um trabalho que obriga a isso, já vi candidatos a dar beijos e abraços durante um dia inteiro. Um deles, não vou dizer o nome, coitado, apertou-me a mão meia dúzia de vezes ao longo de um dia. À noitinha disse-lhe e ele pediu-me desculpa. Que a confusão era muita e essas coisas! Todos sabemos como é, por isso queria hoje dizer-te que já há Internet em Cabo Verde e falar-te daquele que deve ser o jovem mais fascinante que já conheci na minha vida.
Vem isto a propósito, exactamente, da Internet e das dificuldades que, sem ela, tive para te responder às tuas cartas na última quinzena do mês passado. Mesmo assim nada comparado com o que passava, e se calhar ainda passa, um jovem guerreiro Maasai, que conheci no Quénia, há uns tempos.
Estava quase no fim de uma viagem que me tinha levado ao Lago Turcana e próximo da fronteira com a Etiópia. Tinha depois descido até à reserva de Maasai Mara, junto da Tanzânia, e visitava, com mais cinco amigos, o Parque Nacional de Hell´s Gate, no monte Longonot, relativamente próximo do lago Naivasha.
Terrenos, enfim, dos guerreiros e pastores Maasai. Sem guia, embrenhamo-nos pelas gargantas vulcânicas de Hell´s Gate, nós e um jovem israelita que se nos tinha juntado alguns quilómetros antes. E, claro, perdemo-nos os sete! Andávamos por ali, a tentar encontrar um caminho para seguir em frente ou, em último caso, voltar para trás, quando o jovem acocorado numa falésia que apreciava os nossos esforços havia minutos resolveu oferecer ajuda.
Não nos podia ter calhado em melhor hora. Conduziu-nos pelas gargantas de Hell´s Gate, mostrou-nos pormenores que sem ele nos teriam escapado, e proporcionou-nos umas horas bem passadas. Saímos das gargantas já ao entardecer e, cansados, sentamo-nos todos num promontório, a conversar.
Na verdade foi esse jovem quem mais falou. Contou-nos como é ser guerreiro maasai, falou-nos dos rituais que os jovens têm de se submeter para atingir tal estatuto. Lamentou especialmente ter de matar um leão para se tornar aceite pelo grupo. Às vezes, de noite, disse, ainda ouvia o rugido do leão a morrer. Ainda bem que os mais velhos decidiram mudar as regras. Depois dele, contou satisfeito, basta que cada grupo mate um leão para se chegarem todos a guerreiros.
A conversa derivou depois para a Europa, para a dita civilização. O jovem, naturalmente, também tinha curiosidade. Gostava sobretudo, disse, de conhecer pessoas. As pessoas, homens ou mulheres, novos ou velhos, de África, Europa ou qualquer continente, tinham sempre coisas para lhe ensinar. Por isso estava muito feliz por nos conhecer, por aqueles momentos que passámos ali juntos. Obrigado por terem vindo, disse num inglês quase perfeito (a língua dos maasai é o swahili).
Ficámos impressionados com o discurso e as ideias do jovem pastor e guerreiro, que ao contrário de outras pessoas que tínhamos conhecido pelo Quénia, não pedia dinheiro nem t-shirts nem canetas. E que se dizia feliz só por estar ali a falar connosco.
Já não sei quem mas lembro-me que uma das raparigas perguntou se lhe podíamos escrever, se ele recebia cartas. E foi quando o jovem, de forma natural, nos deu o seu mail.
Mail? Mas tu tens Internet? Não tinha ali, claro, vivendo no meio da savana, à sombra das acácias, ao lado dos elefantes, gnus, leopardos, zebras e gazelas. Mas num povoado a 25 quilómetros havia Internet e o jovem, uma vez por semana, fazia 50 quilómetros, a pé, para ir ver o mail.
Ficámos pasmados mas ele explicou que 50 quilómetros a pé não é assim tanto para um povo habituado a andar a pé, que sobrevive caçando e pastoreando.
Sei que chegou a trocar mensagens com uma das raparigas do grupo mas confesso, envergonhado, que nunca lhe enviei qualquer mail. E não foi para lhe poupar a caminhada.
Mas às vezes lembro-me dele. Imagino-o de lança na mão, um ponto vermelho na imensa savana, a caminhar para um cyber-café para trocar umas ideias entre Maasai Mara e o mundo. Feliz. E nessas alturas um cabo submarino que se parte aqui não tem nenhuma importância.
Um abraço online
Fernando Peixeiro



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