Orgasmos e nados-mortos

Caro amigo

Já tu ouviste falar alguma vez no IILP? Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Não pois não? E da CPLP? Ah! Isso sim! Pois o IILP foi criado antes da CPLP por todos os países que falam Português. Tem sede aqui, na Cidade da Praia. E não serve para nada. É um filho que os pais abandonaram e até hoje, como quase todos os casos do género, ninguém entende porquê.
A concepção, num português mais directo, a queca, entende-se. Ou seja, quando estavam a fazer a criatura era tudo bem, ia ser tudo uma maravilha. O problema é depois não terem coragem de fazer um aborto mas também não terem…bem… tomates, para alimentar a criança.
A concepção, dizia eu, partiu do antigo Presidente do Brasil José Sarney, em 1989. Em 1999, dez anos depois, na VI Reunião dos Ministros da CPLP, foi criado o Instituto, escolhendo-se a Cidade da Praia, aqui em Cabo Verde, para sede. Dois anos depois, que a gestação de uma coisa assim é bem mais longa do que a de um elefante, lá surgiu finalmente o IILP, num edifício no centro da capital, de traça antiga, muito bem restaurado. Uma linda criança, digamos.
Mas qualquer linda criança, se não for alimentada, vai definhar, vai atrofiar, e vai morrer se ninguém olhar por ela.
Esta tem oito babosos pais. Quando a estavam a fazer. Mas hoje digamos que perderam a pica e lhe restam três, o resto são padrastos e há uns que nem para lhe darem chapadas servem.
A Guiné-Bissau, por exemplo, que tinha de pagar pensão ao puto, nunca lhe deu um tostão para um pacote de leite em pó que fosse. Vive ele com a ajuda de Portugal, Angola e Brasil, porque os outros nem se lembram dele quando faz anos. Cabo Verde, que devia ter uma responsabilidade acrescida porque a criança vive em sua casa, não dá um centavo há dois anos.
Então para que se gerou esta coisa? Perguntas tu. Pois bem, livre e conscientemente, os oito países criaram o IILP para ajudar a promover, defender, enriquecer e difundir a língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização oficial em fóruns internacionais.
Uau! Lindo!
Mas como os institutos, como as crianças, não vivem do ar, há que alimentá-los. E porque não é uma empresa e não gere receitas o dinheiro tem de vir de algum lado. De onde? De quem criou a coisa.
Amélia Mingas, directora executiva do IILP, dizia-me há poucos dias que está cansada de se queixar da falta de dinheiro e que já nem se justifica falar do assunto, porque “os Estado membros sabem e estão conscientes das suas responsabilidades, embora não as assumam”.
“Não posso estar sempre a fazer o papel de mendigo. É pouco digno e cómodo”, diz a responsável. Claro. Tem toda a razão esta angolana, que admiro pela capacidade que ainda tem de se apresentar bem disposta, numa casa onde nem tem dinheiro para contratar pessoas nem para comprar mobiliário.
O próprio secretário-executivo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, caso não te lembrasses), Luís Fonseca, disse recentemente em Cabo Verde que o IILP é visto pelos países membros como uma “instituição menor”, sem um papel efectivo, que teve objectivos nobres na sua criação mas que “não se traduziram em termos políticos”.
Hoje, o IILP chegou ao absurdo de ter apenas quatro funcionários, incluindo Amélia Mingas, a única especialista em Língua e Literatura Portuguesa. “É ridículo”, diz a responsável.
Ridículo e uma vergonha. E um atentado à língua portuguesa. Mais vale dizerem todos que se estão a… hummmm… marimbar para o IILP e acabarem com a palhaçada.
Que o façam quinta e sexta-feira da próxima semana, em Lisboa, quando se juntarem todos para a VII Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, que por acaso tem como tema principal a Língua Portuguesa.
Se pudesse pedia-lhe que se deixassem de orgasmos quando já sabem que o resultado são nados-mortos. E por favor não brinquem com o Português, mal ou bem esta língua fantástica que tem sido apanágio das nossas cartas, excepto quando eu, ridiculamente, tento falar o crioulo.

Um indignado abraço

Fernando Peixeiro


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