Onde é que eu vou estar no 25 de Abril
Publicado por Fernando Peixeiro 25 Abril 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Escrevo-te no dia em que começam por aqui os festivais de Verão, hoje o da Gambôa, aqui mesmo na Praia, e lá mais para o Verão os de S. Vicente e do Sal. Pensei também escrever-te sobre o Rui. Mas dizer o quê que não tivesses dito já? Só me lembrava de uma frase que sempre ouvi à minha avó: nós não somos nada!
E é por isso, por ter pensado ( pensar demasiado às vezes é o mal de muita gente), que achei melhor falar-te de festas, de coisas boas e de alegria. Não quero, não gostava, que a nossa correspondência fosse um vale de lágrimas constantes, e que cada carta que abrisse me molhasse o computador com tanta tristeza, porque este material possui componentes que devem enferrujar.
E aqui estou eu, assim, a falar-te da Praia, ontem foi um concerto do músico Mário Lúcio, aqui no Centro Cultural Português, e outro no Palácio da Assembleia Nacional a marcar os 30 anos do grupo Mendes Brothers, formado pelos irmãos Ramiro e João Mendes em 1978 e autor de discos como “Bandera” ou “Kabu Verdi”.
Os irmãos voltam a repetir a dose no festival da Gambôa que hoje começa, que será, como de costume, coisa para começar lá para as 10 e tal da noite e acabar amanhã de manhã, quando o sol e a cerveja levarem alguns, às vezes muitos, a dançar dentro de água, porque aqui, caso não saibas, a água está sempre a uma temperatura muito agradável.
Este ano os três dias, ou melhor três noites, vão ser essencialmente nacionais, com nomes aqui bastante conhecidos como Kino Cabral, Beto Dias, Chando Graciosa, Nancy Vieira (esta deves conhecer) ou Zeca di Nha Reinalda (gosto muito).
E no sábado à tarde, coisa rara neste país, há cinema! Quando eu era criança, na minha aldeia havia uma vez por mês uma sessão de cinema, organizado por uma coisa do Estado Novo chamada FNAT (Federação Nacional Alegria no Trabalho). Ainda hoje me lembro dos filmes do Errol Flynn que “papei” na altura. E da ansiedade com que esperava a noite, de ir pedir um banquinho emprestado na taberna do “Bocha”, porque a sala de cinema não passava de um casão abandonado com uma das paredes pintadas de branco, de me entusiasmar tanto com as aventuras do Capitão Blood ou do Robin dos Bosques, ou de não dormir com a imagem do vilão a ser apunhalado no final.
Estou quase assim agora, quatro meses que levo sem sair das ilhas, onde nem uma sala de cinema funciona. Acredito que não será preciso um banquinho, porque agora a vida sempre é outra e porque ainda ontem o João Neves, do Centro Cultural Português, dizia com ar grave que tinha de reservar lugar para os jornalistas.
Mas acredito também que vou gostar de ver “A ilha dos escravos”, de Francisco Manso, tanto mais que terá imagens que me serão familiares.
Como vês, adivinham-se uns dias de diversão por cá. E imagino que por aí também, que com um feriado à sexta-feira a diversão é pegar nos carros e sair das cidades durante três belos dias.
Por mim fica prometido que domingo te conto o resultado de tanta festa. Fica sabendo que a coisa aqui é imprevisível. No ano passado o resultado foi, creio, dois mortos e uma carrada de armas brancas apreendidas. Além da praia da Gambôa ficar com um cheiro insuportável durante uma semana. Te direi, caro amigo, te direi.
Um revolucionário abraço
Fernando Peixeiro



Ó Peixeiro, eu até acho que tu só mudaste de casa para não estares noite inteira acordado com o som rufenho oriundo da Gamboa que te entrava casa dentro na Prainha.
Vais gostar do filme do Manso, sim senhora. E está atento aquele fantástico artista, que faz um papel fabuloso de tenente que manda fuzilar uns tipos mal encarados. Esse gajo tem futuro no cinema!!!