Caro amigo

Falei-te em tempos de uma viagem aterradora, entre vagas e ilhéus, só não te expliquei o que me levou a meter-me num barquinho para ir a uma ilhota deserta, sem sombras e sem comida, onde se dorme no chão e à luz da lua. Pois, digo-te agora, fui ver, com os meus próprios olhos, que as cagarras, umas aves com cara de pombo e pés de pato, este ano puderam ter as suas crias em paz o sossego. Não acontecia há décadas.
E tudo se deve a José Melo, ambientalista, presidente da Associação Biosfera I, que este ano convenceu o governo de Cabo Verde a, finalmente, fazer alguma coisa para evitar a mortandade. Ele e outros elementos da Biosfera, mas também militares, estiveram um mês inteiro no ilhéu Raso, em condições difíceis mas mesmo assim felizes, a ver todos os dias as pequenas cagarras a deixarem os ninhos e irem à aventura, mar dentro, onde vão viver agora para sempre.
Mas, tenho de dizer-te, estranho país este, que classifica o ilhéu Raso como reserva natural, onde sabe que nidifica uma população de aves única no mundo, e que não se chega à frente e é a Biosfera que tem de pagar tudo.
“Praticamente custeamos tudo, incluindo o barco da guarda costeira, a quem pagámos 1900 euros de combustível. Um preço de apoio à Biosfera, quando esse devia ser o trabalho deles”. É José Melo quem o diz, quem se queixa, claro, porque sabe, porque o governo sabe, porque todos sabemos, que essa era a obrigação do Estado de Cabo Verde.
O ilhéu é uma rocha árida de sete quilómetros mas abriga 75 por cento da população mundial de cagarras Calonectris Edwardsii, uma ave que vive nove meses no mar e que só vai a terra para se reproduzir. Cada casal põe apenas um ovo, em Junho, e as crias saem do ninho durante todo o mês de Outubro, quando pescadores de S. Vicente e Santo Antão ali costumavam ir apanhá-las, para depois as vender para petisco. No ano passado, já sabes, mataram mais de 12.000 crias.
Mas aquele torrão não é só cagarras. Tens ali cinco espécies de répteis e já foram lá avistadas mais de 50 espécies de aves, migratórias ou nativas, grande parte delas na “lista vermelha” das aves em extinção.
Uma jóia que devia ser protegida. Pela lei sim. Nem é permitido a ninguém lá pôr os pés. Na realidade não. Este ano teve de ser a Biosfera a andar de ilha em ilha a dizer aos pescadores “deixem lá as cagarras em paz”, “não apareçam no Ilhéu que estão lá os militares e só vão perder o vosso tempo”. Disseram, e até tiveram de ouvir pessoas a dizer que iam sim senhor, e que iam encher os barcos de pássaros, nem que morressem na tentativa.
Não foram. Não morreram. Nem as cagarras. Este ano. Mas sabe-se que se para o ano não se voltarem a proteger os bichos quem voltam são os pescadores, de varas afiadas, para caçar crias nos ninhos.
Todo este trabalho, deste ano, não faz sentido se não for continuado nos próximos anos. José Melo diz que para o ano vai tentar de novo, apesar das dificuldades. “Para estar aqui a proteger as cagarras tive de ter uma autorização por escrito, mas quem vem matar 12.000 não tem problema nenhum”, disse-me ele há dias. Acredito que para o ano vai lá estar de novo, apesar de ter, como me contou, arranjado muitos inimigos por causa das aves.
Não o incomoda. E eu acredito. Vi-o ficar de olhos cheios de lágrimas só de presenciar, na televisão, a morte de uma cagarra. Vi-o falar com entusiasmo dos animais, vi-o fazer carícias a alguns, nos ninhos, vi-o mostrar-me com ar de triunfo as penas já crescidas de outros. Conhece-lhes os hábitos, conhece-lhes os ninhos, conta-as e dormiu o mês passado, nas rochas, entre o mar e os buracos onde elas descansam à noite, quando chegam da faina, antes de alimentar as crias.
Vi tudo isso e sei que para o ano vai lá estar. E sei também que se o governo de Cabo Verde e as gerações futuras não lhe agradecerem pelo menos os gansos patolas, as calhandras, os rabos de junco, os lagartos tarantolas e, claro, as cagarras, o vão fazer. A minha parte aqui fica. Obrigado José Melo.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Obrigado José Melo”

  1. 1 Dmalaia

    Não sei bem se percebi porque não consigo deixar comentários aqui há dias, mas deve ser da minha “extrema habilidade” com computadores, quase de certeza…
    Estranho mundo este, em que é necessário autorização para defender bichinhos, mas para matá-los é à fartazana…
    Enfim, suponho que os pescadores os matem para matar a própria fome e para alimentar as suas próprias crias, o que poderá justificar algo. Por pouco que seja…