O vento que nunca é frio

Caro amigo

Em 1999 viajei, pela primeira vez, para o continente asiático. Lembro-me que foi uma viagem dura, porque longa e classe económica. Mas lembro-me sobretudo da minha chegada a Singapura. Tinha saído de Paris numa sexta-feira à noite e cheguei a Singapura ao fim da tarde de sábado, 12 horas depois. Pois… dirás tu por aí agora. Mas que raio tem isto a ver com Cabo Verde? Vais ver que tem.
Singapura, por mais que me goste a cidade, era só ponto de passagem. Iria seguir, nessa mesma noite, para Perth, na Austrália, onde chegaria madrugada alta, e daí apanhar um outro avião para Darwin, onde esperava arranjar uma “boleia” num avião qualquer para o meu destino final: Timor-Leste.
Não é por isso de estranhar que, mal chegado a Singapura, procurasse um sítio para fumar um cigarrito, porque embora não seja daqueles fumadores inveterados confesso que também sou um poluidor. Mas o que retenho até hoje é o momento em que entro na sala reservada a fumadores, um espaço aberto para a pista, e sinto pela primeira vez o “bafo” que é a altíssima humidade e o calor típicos dos países asiáticos. Imaginei, e bem, que em Timor-Leste seria assim. E pensei: eu não vou aguentar isto dois meses, o tempo que estava previsto viver naquele que é hoje o país mais jovem do mundo.
Como num filme, vamos saltar a Austrália e os dias que fiquei à espera de um avião que me deixasse em Díli. Vamos saltar também os primeiros tempos e vamos fixar-nos num dia preciso, que também retive na memória.
Tinha saído manhã cedo da capital timorense para ir entrevistar uns professores portugueses que viviam isolados em Ermera, uma localidade (que tão bem conheces) já nas montanhas, onde à noite faz frio e a humidade da beira mar é só uma recordação desagradável de quando é preciso descer à cidade
Passei lá o dia e regressei já o sol se punha para os lados de Atambua, uma viagem lenta e perigosa, por estradas em mau estado e muito estreitas, e cheguei a Díli noite alta, quando os restaurantes já começavam a esvaziar-se, na exacta medida em que um barco/discoteca no porto da capital se começava a encher.
Lembro-me, como me lembro da noite de Singapura, de chegar a Díli e sentir-me bem naquele calor húmido da cidade. Um dia nas montanhas fora o suficiente para perceber que já gostava daquela sauna de Díli, que me sentia bem, aconchegado, a cozer naquele caldo molhado e poluído da beira-mar.
Em Cabo Verde não é tão grande a humidade mas o calor sim. Sentes como te envolve mal sais do ar condicionado de um escritório, sentes o vento que nunca é frio, sentes o alívio das brisas tépidas de algumas noites e sentes o desgosto de, nalguns dias, nem uma sombra te aliviar da canícula.
É desagradável? É. Mas a humidade de Timor-Leste também o era. E sinto saudades.
Escrevo-te, caro amigo, na véspera de ir de férias a Portugal. E tenho para mim que, neste mês que estarei por aí, vou ter saudades de Cabo Verde. De muitas coisas, de muitas pessoas, e se calhar também dos dias insuportavelmente quentes e das noites tépidas.
Pensei nisso quando te li hoje, quando me falaste da nostalgia que sentiste quando voltaste à “venda” da tua juventude. E pensei também que este mês de férias vai ser se calhar a minha prova de fogo. Será em Portugal que vou perceber em que medida gosto de Cabo Verde, como foi aqui, de resto, que aprendi a valorizar algumas coisas que deixei aí.
Ou se calhar estou enganado. Se calhar só vou perceber o quanto gosto de Cabo Verde no dia em que sair do avião na Cidade da Praia, no regresso ao trabalho, e perceber que tinha saudades do calor que me vai envolver e do vento que nunca é frio.

Um saudoso abraço

Fernando Peixeiro


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