O vento e o mar

Caro amigo

Se fosse possível transportares-te para aqui, de um momento para o outro, dirias que está uma noite de Inverno, uma borrasca de fazer inveja à época dos furacões dos Estados Unidos (tinham de ter uma) ou às monções asiáticas. Mas nada disso. É apenas um adereço da minha casa nova, para mim, na verdade, um belo atractivo.
Falei-te há tempos de como estava impossível continuar na minha casa na Prainha, zona da capital de Cabo Verde que de nobre me parece que apenas tem agora o nome. Passei lá ontem, a fechar água e luz, e terei de lá voltar amanhã, para oficializar o divórcio, mas achei o local desolador. Agora que regressou a época dos ventos de leste (são sempre de leste, como já te disse) a areia da praia enche as ruas, cobre os pátios das casas e infiltra-se quartos dentro. A minha dava pena, com a quantidade de areia que se acumulou por todo o lado, em menos de um mês.
Agora vivo num terceiro andar, numa zona ventosa, como são todas aqui, porque vento é o que não falta. Mas tenho uma vantagem, o vento não traz a areia do mar, porque aqui ao lado há mar mas não há areia. Outra vantagem, ou melhor… ainda estou em pesquisas, é que me livrei da bicharada. Mas digo que estou em pesquisas porque, imagina, já descobri três ou quatro pequeninas baratas nesta casa, novinha em folha. A Arlinda disse-me, e eu acreditei de imediato, que elas vieram ainda ovinhos dentro do fogão, ou do frigorífico, ou até do micro-ondas. Devia ter desmontado tudo, ou se pudesse deixar tudo, porque afinal trouxe as casas dos bichinhos. Mas enfim… são só baratas! Formigas nem rastos, ratos nem cheiro.
Mas dizia eu, agora vivo num terceiro andar, meio desabrigado, janelas de um lado e de outro. De um lado entra o vento, do outro sai. E mesmo quando está tudo fechado ele entra! E depois, imagina, sai. Entra pelos buracos das fechaduras, entra por uns pequeninos furos que fizeram na parede para quando for preciso montar um ar condicionado, entra por debaixo das portas… enfim. Por estes dias, estas noites, ouve-se distintamente o uivo do vento, especialmente na cozinha e na sala, mas também no escritório, onde me encontro agora.
A este som costumo, em Portugal, associar àquelas longas noites de Inverno. Quando lá fora o vento sopra assim e cai uma chuvinha a noite toda. Aquelas noites em que gostas de ficar em casa, de te aconchegar no quentinho e ficar a ouvir o vento e a chuva, imaginando o quanto se está desagradável na rua. E tu ali.
É por isso que gosto do som do vento a uivar nas janelas. E é como se tivesse um comando para o uivar do vento. Se quero mais som de mau tempo abro um bocadinho de uma janela, da sala por exemplo, e outra do outro lado da casa. Se abrir um bocadinho de todas as janelas então lá fora está um ciclone.
Na verdade lá fora está uma noite, como todas, cálida. No Inverno cabo-verdiano a temperatura desce um pouco. Está, como de diz por aqui, frio. Mas não acredites. Por estes dias a temperatura oscila entre os 25 graus de dia e os 24 de noite.
Não é frio. E o barulho que oiço daqui não é o da chuva a bater nos telhados, nos carros, a fazer poças na rua, a fazer desta noite uma daquelas em que só te apetece ficar enroscado no sofá ou bem enrolado no cobertor. O barulho lá de fora, que não para, pode parecer-se com o de uma tempestade a aproximar-se mas é só o mar, ali ao fundo.
De dia vejo-o, daqui. De noite oiço-o apenas. E porque é Inverno gosto de imaginar que lá fora está mau tempo. Por isso deixo uma frincha da janela aberta para o vento me vir ajudar na minha imaginação. O vento e o mar. E as minhas noites ficaram muito mais quentinhas. Agradavelmente quentinhas.

Um imaginativo abraço
Fernando Peixeiro


2 Responses to “O vento e o mar”

  1. 1 ricardo

    Agora, para os noruegueses que passaram os olhos por esta prosa do Peixeiro, percebem o que é a saudade?? Finalmente, entendem o que é a saudade… e o que isso faz à senilidade de um indivíduo??! Se não perceberam, claro, é porque não entendem português. São noruegueses!
    Mas, olha, ó camarada, então a tua imaginação permite, mesmo em Cabo Verde, onde, pelo menos em Santiago, as frias noites de Inverno são quentes cumá porra… ficar enroscado numa manta?? Hummmm… Olha… sei lá… um Ben-U-Ron… umas aspirina… ou então, um bilhete de avião…
    Boa viagem, bro… friozinho do bom, que bem o mereces!

  2. 2 Guinevere

    Amigo grande,

    Por aqui a chuva teima em esconder-se. O ventinho frio do Inverno também. Tivemos algum nevoeiro durante a semana passada e parece que já foi uma sorte. Friosinho temos.
    Mas, a mairia dos dias são passados de camisolão a apanhar solinho (tudo na realidade visto da janela deste 10º esq em Alvalade onde trabalho). Talvez a chuva de que tu falas venha lá para Julho. Mas aí, vai faltar o friosinho.
    Isto anda tudo trocado. Fruto da mão humana? Também. Resultado de uma evolução normal na natureza? Penso que também. E não fará a mão humana parte desta natureza?
    De qualquer maneira… Também tenho saudades tuas… muitas.