O susto do busto
Publicado por Fernando Peixeiro 13 Dezembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
A 12 dias do Natal, e embora seja pouco dado à festa, tenho de admitir que estou possuído pelo espírito. É o Natal pá!! A comunhão, a família, a paz, o amor, as prendas, a alegria, o bacalhau, o peru, as rabanadas à lareira… À lareira? Bem aí talvez… Mas não interessa, decidi que até Janeiro não te falo mais de coisas tristes. Por isso hoje decidi falar-te do Infante D. Henrique. Não é triste pois não?
Eu não acho. A história até pode ter começado triste mas tem um final feliz e parece-me que todas as histórias tristes que tenham um final feliz deixam de ser histórias tristes para passarem a histórias felizes. Confuso? Eu também.
Então é assim. Na Assomada, a segunda cidade de Santiago, a seguir à Praia, havia numa praça um busto do Infante D. Henrique, igualzinho àqueles que há em Portugal, com o chapéu típico redondo e aquele pano descaído, a sair do chapéu e a cair pelo ombro. Pois não se sei porquê, se pelo evoluir dos tempos, por qualquer questão anti-colonialista, se por incúria ou desleixo, o busto desapareceu da praça e foi parar a uma lixeira.
E lá esteve, a estragar-se, porque faz calor e às vezes chove e porque um busto não é de ferro, até alguém ter reparado na maldade e ter colocado o Infante nas bocas do mundo. E então que é que aconteceu? A Enacol, que é a empresa nacional de combustíveis aqui de Cabo Verde, chegou-se à frente, pagou a remoção do busto e o transporte para a ilha de S. Vicente, onde uma empresa especializada colocou o busto como novo.
Agora, trabalho concluído, a cargo do artista Manú Cabral, vai regressar ao seu lugar de origem, na pracinha da Assomada.
Eu estou a partilhar a história contigo porque acho isto bonito. Não foi uma empresa portuguesa qualquer que salvou o Infante, foi uma empresa genuinamente cabo-verdiana, que não tem vergonha do passado do país nem qualquer tipo de complexo de antigo colonizado.
Afinal, o Infante D. Henrique faz parte da nossa história comum. Foram as naus que impulsionou que chegaram aqui às ilhas, desertas, e que estão na origem da formação deste país, hoje reconhecido mundialmente como um exemplo de como se pode fazer uma grande Nação a partir de… pedras e pouco mais.
O jornal A Semana vai mais longe. Explica, para quem já não se lembra, que D. Henrique, infante da ínclita geração, foi o homem que iniciou o processo de parceria especial entre a Europa e Cabo Verde.
Que o primeiro-ministro, José Maria Neves, ou o líder da oposição, Jorge Santos, não tenham lido isso. Ainda lá vão dar um piparote no busto.
Um abraço amigo
Fernando Peixeiro



Hummm… Ó Peixeiro, não fora o facto de o teres referido, isso não teria importância. Curioso, a importância és tu que a dás, mas o chapéu salta com o vento. É que a Enacol é metade da Galp e metade da Sonangol, ou melhor, 49 por cento para cada lado , seno o Estado cabo-verdiano detentor de um por cento. Naturalmente que foi esse um por cento determinante na decisão de recuperar o bronze histórico.
E isto - “O jornal A Semana vai mais longe. Explica, para quem já não se lembra, que D. Henrique, infante da ínclita geração, foi o homem que iniciou o processo de parceria especial entre a Europa e Cabo Verde” - é, de facto, muito bem apanhado.
Outra curiosidade, na Praia, MIndelo, etc. muita estatuaria foi recuperada após o turbilhão da indpeendência. Como referência, na Guiné-Bissau, um conjunto da mais bela arte do género, está ao abandono em Cacheu. E são dezenas de peças amontoadas, levadas para longe da capital, Bissau. O sítio da excelentes fotografias.É quase diabólico de belo.
Não deve ser por acaso que a Guiné é o que é, sendo Cabo Verde tudo aquilo que não é Bissau.