foto de joao barbosaCaro amigo

Ando eu para aqui esquecido de Portugal e tu a teimares em me contar essas coisas depressivas, que me obrigam a ir de imediato dar três mergulhos ali na praia para ver se bebo uns pirolitos e apanho uma disenteria e me esqueço do que tu me escreves. Como se já não me bastassem os meus coentros que ando há meses a semear e não passam de nados mortos.
Hoje, para me vingar de ti, não vou falar-te dos coentros, porque se não querem nascer paciência. Já tentei de tudo, até falei com as sementes, no meu melhor discurso, que nem o Guterres faria mais bonito, e nada.
Já comprei terra estrumada, dou-lhe água, ponho-os ao sol, levo-os para a sombra… só falta dar-lhes música e um café pela manhã.
Não merecem, digo-te eu, dois parágrafos do meu tempo. É por isso que te conto uma outra coisa que me irrita a sério e que por acaso é basicamente uma ilha, o Sal.
Aliás, devo dizer-te, o Sal irrita-me e deprime-me. Cada vez que lá vou em trabalho, imagina, fico doido para mandar qualquer coisa pela Internet. É que os cyber-cafés, que até há vários, bloquearam os computadores para que não possas enviar um ficheiro de uma caneta ou de um CD. Por causa dos vírus, dizem eles, como se aquelas porcarias não estivessem carregadinhas de vírus.
Agora quando tu ficas num hotel de cinco estrelas, pagas um dinheirão, e os gajos dizem-te que a única Internet que têm é um computador ranhoso, ao lado da recepção, que dá para mandar umas mensagens e que isso de CD ou Pen, nem pensar, só te apetece virar costas e mandá-los à merda, não necessariamente por esta ordem.
Fazem um hotel monstruoso, espetam-lhe com cinco estrelas, e o que oferecem aos clientes? O quarto até era simpático, virado a manhã inteira para o sol, o que o deixa assim para o quente o dia inteiro. Paciência, porque o ar condicionado está avariado.
E se quiseres ver televisão para te distrair, depois de andares a correr de táxi de um lado para o outro à procura de Internet de gente, levas com uns canais em italiano, porque assim sempre pode ser que aprendas alguma coisa.
Durante os dois dias que fiquei no Crioula pensei várias vezes sobre quem será a alminha que carrega o saquinho das estrelas e as distribui assim pelos hotéis. Provavelmente é cega. Ou estúpida.
Para o ano começa a ser construído um Hilton, o primeiro da ilha. Quantas estrelas a alminha lhe vai dar então?
Agora o que me deixou bem chateado foi quando fui fazer o check-out, porque felizmente me ia embora no outro dia de madrugada. Apresentei um cartão Multibanco, o mais usado aqui, chamado Rede Vinti4, e disseram-me que não aceitavam. Apresentei outro, também de Cabo Verde, do BCN, e também não o quiseram.
Ah pois, é que só aceitam cartões Visa, como se um cabo-verdiano não tivesse o direito de ir lá dormir uma noite (há cabo-verdianos com mau gosto) e pagar com um cartão de débito normal, que qualquer café de vão de escada aceita.
O Sal, digo-te eu, é uma depressão. Metem-te uma pulseira de plástico e se por azar a perdes, avisam eles, arriscas-te a nem sequer te deixarem a voltar lá entrar para ires buscar as tuas coisas. O sistema das pulseiras coloridas é pidesco. Aguentei a minha 15 minutos depois de sair, o tempo de apanhar um táxi, chegar ao aeroporto, e pedir a uma senhora de um café que me emprestasse uma tesoura. Cortei-a ostensivamente (a pulseira, claro), deixei-a dentro de um cinzeiro e virei-lhe as costas.
O sistema turístico no Sal é uma depressão. Trata mal os cabo-verdianos, paga-lhes miseravelmente, dá-lhes empregos de caca. Trata mal os turistas, obriga-os a usar uma pulseira foleira, impede-os de sair da porcaria dos hotéis de cinco estrelas porque as estrada são uma espécies de picadas, fala-lhes em italiano sejam eles de onde forem, e depois ainda os obriga a pagar da maneira que quer e de forma prepotente.
O melhor do Sal, caro amigo, é o aeroporto, que te tira de lá. E quando me meto no avião só penso que era bom que a tal alminha das estrelas passasse o que eu passei. Ou melhor ainda que essa alminha se cruzasse no meu caminho. Ias ver se não lhe ia ao saco, lhe tirava meia dúzia, e lhas enfiava…
Olha… que é que achas que se passa com os coentros?

Um abraço

Fernando Peixeiro


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