O preço de um escravo

Caro amigo

“São milhares de jovens, sem qualquer especialização, sem família, sem certezas sobre o que os espera, sem segurança e que partem em frágeis embarcações, morrendo às centenas na viagem para a Europa”. Faz todo o sentido lembrar-te agora esta frase, já que me falaste também desta coisa dolorosa que é a imigração clandestina. Imigração já é uma palavra tão negativa que quando lhe juntas a outra, clandestina, dá-nos um nó no estômago. E sabes de quem é a frase?
A frase foi dita por Joseph N´Diaye, conservador da Casa dos Escravos, na ilha de Goreia, no Senegal. Em Outubro do ano passado Ricardo Bordalo e Omar Camilo, pela Agência Lusa, passaram um mês a calcorrear as origens do problema. O primeiro escreveu, o segundo fotografou. O texto de onde tirei este excerto ganhou há poucos dias um prémio das Agências do Mediterrâneo. Os dois estão de parabéns. Mas já o estavam antes. Não foi fácil, disseram-me, esse mês a ver tamanha miséria. Dói, mesmo quando estamos de barriga cheia.
Na conversa com o Ricardo, Joseph N’ Diaye falou da sua tristeza de, passados tantos anos, continuar a assistir à partida dos escravos para a Europa. É que, diz ele, a imigração clandestina é “a escravatura dos tempos modernos”. E eu não me admiro.
A Casa é, conta o Ricardo, um edifício construído no século XVIII pelos holandeses, que serviu como campo de quarentena para “milhares e milhares de mulheres, homens e crianças africanas” levados à força para a Europa e para as Américas.
E hoje? Das mesmas praias partem homens, mulheres e crianças africanas para a Europa. Já não vão obrigados? Direi que sim. Atrás não está um negreiro de chicote na mão, está o ferrete da fome e o estigma da miséria, a empurrá-los para o mar, para os pequenos barcos, e a deixar marcas tão profundas como as tiras de couro do chicote.
E dizia também Joseph N’ Diaye na mesma altura: os novos escravos, ainda que o sejam por opção, não sabem o que vão encontrar, “não sabem se vão chegar, se vão morrer, muitos nem sabem nadar, as suas pirogas são, seguramente, frágeis e inseguras, passam fome e sede”.
Estamos a viver a esta hora, quando te escrevo ou quando me estiveres a ler, uma “repetição da história” para as bandas do Senegal, diz o mesmo N´Diaye, acrescentando algo que também todos sabemos mas que nunca é de mais lembrar: muitos dos jovens que partem “são igualmente explorados, muitas vezes igualmente mal tratados e humilhados, porque não têm qualquer especialização e são obrigados a aceitar tudo e em todas as condições”.
É assim. E se voltarmos aquela praia onde o Ricardo e o Omar estiveram, dizem que encontramos dezenas de pirogas na areia por falta de pescadores, que foram os primeiros a tentar fugir para a Europa. Não sabemos, nunca saberemos quantos chegaram. Não sabemos, nunca saberemos, quantos estão a ser escravizados agora. E não sabemos, como tu dizias, o que terão de fazer para conquistar a sua liberdade. A história repete-se, diz Joseph N´Diaye. Temo que não. A outra escravatura foi abolida. Mas… e esta?

Um abraço ainda triste

Fernando Peixeiro


2 Responses to “O preço de um escravo”

  1. 1 Maria João

    Parabéns a Ricardo Bordalo e a Olmar Camilo. Não conheço o Omar, mas o Ricardo, conheço-o dos tempos de Viseu, da Revista Plágio, da Vagabundagem de Poetas com o Rebocho e das celebrações do Correio Beirão em Moimenta da Beira, com o nosso querido Rui Bondoso. Um abraço para o Ricardo e parabéns aos dois e à Agência.
    Nunca é demais contar as histórias daquelas que perseguem um sonho, assim tão indefesos e explorados. Nunca é demais acusar os responsáveis e repeti-lo, repeti-lo até à exaustão.
    Johnny

  2. 2 ricardo

    Maria João, serás tu quem eu penso que sejas!!?
    Se fores, olha, deixa que te diga que até fiquei comovido a olhar para o que escreves. Nãopelo dito, mas pelo lembrado!
    Pois é, minha querida, pois é… e a história desta gente, os tais novos escravos, ainda está agora a começar. Quando andei pela costa, em Nouadhibou há um imenso bairro, Sherka, onde mais de 25 mil(ao certo ninguém sabe quanto) malianos, guineenses, senegaleses, nigerianos(Niger)… aguardam vez para partir. Outros vão chegando! Ninguém teme a partida, ninguém teme o mar, mesmo aqueles que o olham pela primeira vez. E sabes, não creio que na Europa já tenham percebido que esta gente não é o inimigo! Que a sua vontade de partir é tão absurdamente legítima que custa entender como se lhes barra o acesso ao “el dorado”. Têm uma máxima, esta gente, sacada de experiências passadas por outros. Dizem-no em Holof, mas em português sera algo como isto: Barcelona ou a morte! E vão continuar a partir… e vão continuar a ser rechaçados. A morrer no mar, a morrer na terra deles e delas… Em conversa há dias com o Peixeiro, falavamos na noção partilhada de que há quem se habitue aos olhares vagamente mortos, vagamente vivos, daqueles que atracam nas Canárias ou em Cabo Verde, quando o mar para lá os atira. Vi centenas, alguns já cadáveres, mas nunca me habituei, espero nunca me habituar… O Peixeiro também não! Mas, o que maos me fode, para te dizer a verdade, é que os jornais, tv´s etc… passam páginas e horas a falar da infortunada miúda inglesa que desapareceu do Algarve. Quando a tragédia negra, que no seu gigantismo, vai enegrecendo sorrateiramente a Europa de brancos costumes, está aqui já, sob uma espessa camada de sofimento, mas também de coragem, uma coragem a que essa tal Europa de brancos costumes já não está habituada. Melhor, já não consegue descodificar. E eles, aos milhares, estão lá, em Sherka, em Nouakchott, na costa do Senegal, da Guiné-Bissau, da Gâmbia, pelo menos até Outubro, enquanto o mar anda calmo, distráido com os cardumes de atum que por esta altura rumam, também, para norte, à espera de uma oportunidade. O velho Joseph N´Dyaie diz algo que é tão certo como certo é o êxodo africano estar agora a começar: Diz ele que são escravos por opção! Caramba, quando se é escravo por opção, o que não estará por detrás?? Tenho apenas uma certeza, quem decide em BRuxelas ou Madrid enviar barcos patrulha para interceptar as pequenas pirógas cheias de corajosos africanos, é porque toma estas decisões em climatizados gabinetes sem janelas para a realidade sobre a qual incidem as suas coordenadas. Até mais ver, rapariga!

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