O povo encarnado

Caro amigo

Tenho eu estado agora mais caladinho, mas vou já explicar-te porquê. Sabes que decorreram aqui eleições autárquicas, que por acaso foram ontem, mas tive nos últimos dias de ir para a ilha do Sal, porque estava lá o Benfica. Esse mesmo, daí, que este ano não ganhou nada e que a continuar assim ainda se torna um clube de bairro.
Não foi por isso que me mantive caladinho, foi porque quando saio da Praia fico com dificuldades em comunicar. E perguntarás tu por que raio saí eu da Praia e que raio fui eu fazer sobre esse clube que não ganhou nada e que por acaso é o meu preferido, deixando para trás os últimos dias de campanha eleitoral.
Pois bem. Em primeiro lugar fui porque me mandaram ir. E em segundo lugar fui porque era preciso ir ver os jovens jogadores benfiquistas a jogar voley, a dar autógrafos, a fazer um jogo de brincadeira com uma equipa daqui, a ter uma jantarada, a mandar umas camisolas ao ar, a distribuir umas canetas.
Dito assim parece um disparate não é? Então não parece que é mais importante uma campanha eleitoral para as eleições autárquicas, cujos resultados vão influenciar a vida dos cidadãos de 22 câmaras, do que uma viagem de lazer da equipa principal do Benfica à ilha do Sal, que só esteve aqui porque está a caminho de Angola? E que se calhar não aguentava a vergonha de estar em Lisboa no dia em que se disputava a taça de Portugal e ver o seu vizinho passar com ela à sua porta e levá-la ali para os lados de Alvalade.
Volto pois a perguntar-te. Parece um disparate não é?
Aprendi, que os anos fazem-nos destas coisas, a relativizar tudo. A ver os vários lados da mesma questão. A tentar ser o menos preconceituoso possível. A não achar que o que eu penso é que é correcto.
E não estava correcto. Porque foi importante a minha ida à ilha do Sal. Porque o Benfica é importante. E digo isto não porque até gosto do clube mas pelo que vi. Uma equipa que movimenta uma ilha como o fez o Benfica é importante. Mas o Benfica faz mais, movimenta todo um arquipélago. Acredito que no Sal nem jogadores nem dirigentes estavam à espera de uma coisa assim. “Imagino se tivéssemos ganho alguma coisa”, disse mesmo o vice-presidente do clube, quando viu o carinho com que os salenses receberam o povo encarnado das bandas da Luz.
Começou logo no dia em que chegou esse povo, na quinta-feira, com o aeroporto cheio de gente e a polícia a ver-se grega para o tirar de lá, especialmente um do grupo, Nelson, jogador da equipa principal do clube e natural dali da Palmeira, uma terrinha praticamente nas traseiras do aeroporto.
No dia do jogo, por exemplo, foram mobilizadas tropas e polícias para proteger os jogadores da histeria do povo. E dentro do estádio era tudo encarnado, até os jogadores adversários, que trajavam de preto, pareciam ter o coração vermelho. Pelo menos metade tinha sim, disse-me um deles.
É um paradoxo mas a verdade é que o Benfica vem jogar a Cabo Verde num estádio onde só tem adeptos seus, onde milhares de cabo-verdianos festejaram os seus golos contra uma equipa de outros cabo-verdianos. Nunca na Luz houve uma assistência assim.
E pronto, depois de me ter cansado a ir ao Sal, andar a correr atrás do Di Maria, do Mantorras, do Nelson, do Makukula, do Chalana, tenho de confessar: é importante.
Ah! As autárquicas? Foi fixe. Depois falo-te disso.

Um abraço

Fernando Peixeiro