O padre que vinha ajudar Cabo Verde
Publicado por Fernando Peixeiro 27 Março 2007 em Cabo Verde.
Amigo António,
Não tenho para ti uma história com um padre acelera ou sequer parecida. Ainda andei por aqui a procurar um padre motoqueiro para te fazer inveja, busquei um padre aviador, paraquedista, ciclista, em desespero de causa tentei ao menos um padre surfista, mas também nada.
Mas há uma história envolvendo um padre, que se passou aqui na semana passada, e que me deixou a pensar.Paul Pritchard. Foi este pastor evangélico de 37 anos que conseguiu essa proeza. Há duas semanas veio a Cabo Verde, onde passaria um mês em missão.
Não sei qual, mas seria porventura uma daquelas missões de evangelização ou de ajuda aos pequenos países pobres de África. Bem… penso que uma e outra serão sinónimos…
Pritchard porém nem teve tempo para aquecer os motores (não, não estejas a pensar que afinal temos um padre acelera). Ao fim de dois dias a carrinha em que viajava enfaixou-se num táxi, ao que parece conduzido por um motorista bêbado, e o pobre padre viu-se numa cama do hospital Agostinho Neto, na Cidade da Praia.
O diagnóstico foi fácil: fracturas múltiplas, três só numa perna e mais umas num ombro, sem contar com algumas costelas partidas. Não estava à morte o homem, mas tinha de ser operado.
Mas o homem é norte-americano. E estava internado, imagina tu, num hospital de Cabo Verde. Ele não o disse, mas deverá ter começado a olhar para aquelas instalações, para os instrumentos, para os médicos… deverá ter até imaginado em que universidade eles se formaram…
Já estás a imaginar. Nos Estados Unidos, a mulher, lançou apelos pungentes nas páginas do site da igreja: pobre do meu marido, que está em grande sofrimento, sem antibióticos, a correr o risco de lhe cortarem a perna se não for operado. Nos Estados Unidos os padres evangélicos lançaram outros tantos apelos pungentes nas igrejas: temos um irmão num hospital de Cabo Verde, África profunda, e temos de o trazer para cá para ser operado.
Armou-se, portanto, o circo. Eram precisos 84 mil dólares para levar o homem para a ser operado num asseado hospital norte-americano, por médicos à séria. E julgas que os 84 mil dólares não apareceram? Obviamente apareceram.
Não era que Paul Pritchard não tivesse confiança nos médicos cabo-verdianos. Que tinha, que tinha, disse, mas… mesmo assim… preferia ser operado nos Estados Unidos. Que vá, respondeu cá o médico que o assistia, Graciano Cardoso, ortopedista, farto de dizer a quem o queria ouvir que o Hospital da Praia tem todas as condições para operar o homem, e disse-o à exaustão nomeadamente ao próprio homem.
“Não existe nenhum risco. Aqui no hospital estamos habilitados para fazer a cirurgia e temos todos os meios técnicos para tratar um politraumatizado”. Queres mais clarinho do que isto?
Pois. Mas este fim-de-semana chegou um avião dos Estados Unidos, fretado, para levar o pastor de volta ao seu rebanho. Com um médico e uma enfermeira. O médico à séria disse o mesmo que Graciano Cardoso: o homem podia perfeitamente ter sido operado na Praia.
Não foi. Espero que o tenha sido já e que se restabeleça rápido. Deve isso às pessoas que contribuíram para ele fugir do país que se propunha vir ajudar.
Fiquei a pensar no que o Hospital Agostinho Neto faria com 84 mil dólares. E confesso-te que lá no fundo fiquei contente. É que o tal taxista deu-se como culpado mas depois mais ninguém lhe pôs a vista em cima.
Um abraço solidário
Fernando Peixeiro


