O olhar do Russo
Publicado por Fernando Peixeiro 13 Março 2007 em Cabo Verde.António,
A tua história do francês e do guarda parecia quase ficção. Mas há filmes com finais bem menos felizes, envolvendo mulheres, homens, sentimentos de um lado, outros sentimentos, bem diferentes, do outro, e se calhar algumas histórias que ainda estarão por contar, talvez igualmente com um pacote de droga pelo meio.
Por isso te digo, antes pobre mas vivo do que num caixão, como aconteceu no mês passado aqui no Sal, às duas italianas, que tanto se falou na imprensa.
Durante os dois dias que andei a investigar o caso não foi fazer o caminho que Agnese percorreu naquela noite que mais me impressionou. Não foi ver as casas das duas, agora de janelas fechadas. Não foi ir a casa onde vivia o homem que as matou. E não foi tão pouco foi estar dentro da cova onde elas foram enterradas, ver a pedra que as matou ainda coberta de sangue e cabelos.
O que guardo até hoje desse trabalho é um olhar. O olhar triste do Russo, o namorado de Giorgia.
Quando me meti no avião para o Sal tinha um contacto. João, fotógrafo de windsurf, tinha prometido que me ia ajudar quando chegasse a Santa Maria, no trabalho ingrato de reconstruir as últimas horas das duas italianas em pouco mais de 24 horas de pesquisas.
João estava a “surfar” quando cheguei. Na carrinha branca dele, que só me fazia lembrar um camião frigorifico mas que no interior o João guarda pranchas, andamos que tempos à procura do Russo, namorado da italiana Giorgia, assassinada no mês passado em conjunto com a amiga Dália, só por sorte escapando Agnese, uma adolescente que gosta de surf também.
Encontramos o Russo sentado à porta de casa. Tinha-nos trocado as voltas porque aquela era a segunda vez que lá passávamos. E depois, em frente, à mesa de um café manhoso, falou das duas jovens, do assassino, e das últimas horas que passara com Giorgia. Das tardes gastas a apanhar sol, das noites a dançar, dos esforços que fazia para que Giorgia aprendesse a fazer surf.
Russo esteve sempre calmo, disse duas vezes que até lhe fazia bem falar daquilo, que estava com muita coisa dentro dele que precisava de sair cá para fora. Levou-me à praia e apontou o lugar preciso onde passaram a última tarde, a apanhar sol, e mostrou-me a casa de Geórgia, um segundo andar que ela tinha comprado creio que no ano passado.
O João da carrinha frigorífica já andava nas ondas e nós tínhamos ido de táxi, que esperava, de porta aberta ali ao lado. O Russo apontou a varanda que era de Giorgia. Olhei a varanda, a casa, um homem branco ainda jovem, que se debruçava para qualquer coisa na entrada do prédio. Olhei os prédios à volta, as ruas de terra batida, umas crianças que brincavam à sombra de uma empena mais a sul. E quando voltei a olhar para o Russo ali estava ele parado, de pé, ao sol, ainda a olhar para a varanda e para a janela fechada. Foi a única vez que o vi chorar. Mas mais do que isso foi aquele olhar de sofrimento, como se naquele olhar estivesse a recordar os momentos que passara ali com uma pessoa que agora estava na morgue dos Espargos, à espera de um avião que havia de a levar para a sua terra natal.
Senti-me culpado por ter levado ali o Russo, senti-me culpado por todo o sofrimento que vi naqueles olhos.
O Russo tinha-me dito que naquela tarde o Sandro, que matou as duas, queria ir jantar com a Dália e que a Giorgia só foi a pedido da amiga. E que insistiu com o namorado para ir também. Russo sente-se por isso culpado da morte da italiana, porque se recusou a ir ao jantar, optando antes por ir treinar na equipa local de futebol.
Ainda na semana passada um jornal aqui voltava à questão e punha na primeira página que afinal Dália e Giorgia tinham sido mortas a mando dos “barões” da droga, porque estavam envolvidas no tráfico e que foi tudo um ajuste de contas qualquer. Uma teoria que para já não faz sentido. A Giorgia não devia ter ido aquele jantar. E o Russo só não foi porque já tinha faltado três vezes aos treinos.
E eu acredito no Russo. Quando, naquela tarde, ele chorava à janela da Giorgia aproximei-me e pus-lhe uma mão no ombro. “Desculpa ter-te feito passar por isto”. Ele olhou para mim e deu-me um abraço. Chorei com ele. E quando dois homens choram juntos têm de acreditar um no outro.
Olha, um abraço
Fernando Peixeiro


