O massacre de Batepá

Livre António,

aceitei a tua ideia de oferecer uma árvore ao presidente da Câmara, e mais, estou a pensar juntar-lhe assim como que… digamos…uma dezena de cães. Pelo menos os bichos têm onde alçar a pata.
Mas porque hoje é dia 01 de Abril, dia das mentiras, queria falar-te deuma coisa que parece mentira. Infelizmente não é. Quando tu vês no corpo de alguém as marcas da escravatura sabes que é verdade, que ela existiu em Portugal não muito antes antes do 25 de Abril, embora isso não se ensine nem se aprenda nas escolas.


Esta semana vi essas marcas no corpo de uma mulher, cabo-verdiana, que trabalhou nas roças do café e do cacau em São Tomé e Príncipe, nos anos 50, ao som do chicote e para fugir ao som dos que morriam de fome em Cabo Verde.
Contou-me o que lá sofreu. E chorou. Porque ainda hoje as lembranças são dolorosas e lhe doem as marcas das cicatrizes, as visíveis e as invisíveis.
E contou-me também o que viu sofrer, os corpos espalhados pelo chão, naquele início de Fevereiro de 1953 de má memória para todos e mais uma página vergonhosa para juntar ao nosso palmarés da época colonial.
Disse-me várias vezes essa mulher, sem nenhuma ponta de orgulho, que tinha estado lá, que assistiu à guerra de Batepá, e que foi tudo verdade.
Confesso-te, envergonhado, que não sabia o que era a guerra de Batepá.Ela explicou-me e depois outros também o fizeram.

Em 1953, era governador de São Tomé um senhor de nome Carlos Sousa Gorgulho, uma revolta de trabalhadores foi silenciada com mil mortos, atirados às águas do oceano para gáudio dos tubarões.
As pressões internacionais do início do século, ainda no tempo da monarquia, (Miguel Sousa Tavares fala nisso no livro “Equador”) para que Portugal acabasse com o trabalho forçado nas roças tinham levado a que fosse sendo introduzida alguma humanização e consequentemente a produção de café e cacau começaram a baixar.Gorgulho (grande nome) achou que era altura de voltar tudo ao normal (entenda-se que o normal era o trabalho forçado) e instituiu algumas medidas que, naturalmente, não foram bem recebidas pelos roceiros.
Seguiu-se alguma agitação social, um alferes (Jorge Amaral Lopes) mandou disparar contra um grupo de pessoas, que responderam e deram cabo do tipo mesmo ali.
Coitados. A vingança foi a morte de um milhar de são-tomenses, vadios e ladrões, segundo o governador, em menos de uma semana.Sem contar com as prisões totalmente arbitrárias, as torturas dignas da cabeça de Maquiavel. Outro são-tomense, mais jovem, não se lembra do massacre, mas diz lembrar-se de ver as marcas das correntes nos corposdos homens de São Tomé.
E sabes onde punham os relapsos? Os agitadores? Os bandidos dos são-tomenses? Numa prisão que com a maré-cheia ficava cheia de água.Onde os presos, durante algumas horas, ficavam com água até ao pescoço.E sabes outra coisa que o grande Gorgulho gostava de fazer? Obrigar os homens a irem buscar areia ao fundo do mar. Um era atado com uma corda, com ferros para ir ao fundo, e outro ficava cá encima, a contar uns minutos para que o homem enchesse o balde de areia, e depois puxava-o antes que morresse lá em baixo com falta de ar.
Imaginas o stress que era para os dois? O sofrimento? Podia sermentira. Podia ser uma história inventada por mim, quando te escrevo, neste dia 01 de Abril de 2007.
Mas é tudo verdade. Batepá como localidade até parece que não existe. O nome vem da frase “Bate pá!”. Ordem para bater nos desgraçados. E tanto que devem ter levado, porque mil mortos não é brincadeira.
O próprio Gorgulho tinha essa noção. Terá dito, quando os corpos se espalhavam pelas ruas: “Deita essa merda ao mar para evitar mais chatices”.

Que tenhas um bom dia de liberdade!

Fernando Peixeiro


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