O mar tá mau hoje
Publicado por Fernando Peixeiro 5 Novembro 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo
O mar aqui entre as ilhas nem sempre é calmo. Já o tinha sentido quando, na semana passada, viajava de barco para o Maio mas tive a certeza ao ouvir a voz de mulher que comentava: “o mar tá mau hoje”. Quando a vi, à popa do navio, junto à amurada, e quando uma onda a molhou quase até aos joelhos, sem que parecesse dar por isso, tive a certeza de que sabia do que falava.
Viajávamos, eu e uma amiga, nos mais ou menos confortáveis bancos de passageiros quando uma senhora idosa se sentiu mal, com tanto balanço, obrigando-nos, pelo cheiro que por ali ficou, a procurar outras paragens mais arejadas. Os melhores lugares estavam ocupados e acabei na parte de trás do barco, sentado numa caixa de mercadorias, a segurar-me o melhor que podia, sentindo o cheiro a refogado vindo de algures e vendo as ondas de vez em quando invadirem o convés.
Foi daí que ouvi aquela mulher a resmungar e a vi depois descer as escadas e inspeccionar decidida as muitas caixas que por ali haviam. Lenço azul atado no píncaro da cabeça, camisa com diversos tons de castanho e algumas flores, também castanhas, saia comprida, verde, e umas sandálias pretas que em tempos tinham sido isso mesmo e que agora eram uns simples chinelos, de enfiar no pé.
O lenço e as grandes argolas de ouro faziam-me lembrar uma cigana mas o seu porte era mais o de um “lobo do mar”. Encostou-se à amurada e quando uma onda varreu tudo nem se mexeu. Só depois tirou os chinelos e esfregou a sola dos pés no ferro molhado e salgado do convés, como se estivesse a fazer uma massagem, e por ali ficou, debruçada, a olhar o mar.
Quando deu por mim, ali encolhido a um canto, lançou um sorriso e aquela mesma frase que já ouvira: “o mar tá mau hoje”. Pareceu ignorar-me de seguida mas animado com o primeiro contacto ganhei coragem e aproximei-me também da amurada. “Já se vê o Maio?”, perguntei-lhe, e ela, com um gesto, apontou a ilha lá muito ao fundo. “Mais de meia hora”, respondeu, agarrando-me a mão e pedindo-me para me desviar um pouco, que ali não era seguro.
Ficámos assim encostados à amurada um bom bocado, conversando sobre o mar e as ilhas, entre caixas de ovos, de “tumati”, de laranjas da argentina, de sacas de couves, papaias, maçãs, batatas e tachos.
Contou-me que anda no mar há 22 anos. A maior parte daquela mercadoria era dela, para vender na ilha do Maio. Ia lá ficar três dias e regressava depois à Praia, na ilha de Santiago, carregada de peixe fresco para vender. A sua casa é na Praia mas há 22 anos que anda a pular entre Santiago, Maio, Boavista e Sal, levando nos barcos legumes frescos e outros produtos e regressando com o que mais falta fizer na Praia. Tem filhos emigrados, alguns em Portugal, para onde uma irmã rumou de vez há algum tempo e de onde, agora, a chama com insistência.
Mas não vai. O que ganha dá-lhe para ir vivendo e gosta de Santiago, dos barcos e do mar, mesmo quando ele está mau.
Não soube como se chama mas é com certeza muito conhecida por aqui. No porto do Maio tinha vários homens à espera, e ainda o barco não tinha atracado já lhes estava a atirar sacas de produtos, que eles iam empilhando no cais.
Mas hoje, quando estava a escolher uma fotografia para te mandar, chamou-me a atenção umas letras pequeninas nalguns caixotes de laranjas e quando fiz um zoom lá estava escrito em letra de forma: Silvina.
Ela nunca me irá ler mas foi de Silvina que hoje te falei. Uma mulher que tem casa na Praia e que mora no mar há 22 anos. Quando viajar de novo aqui pelas ilhas, entre observar os cardumes de atum e os peixes voadores, vou estar atento, mesmo se o mar estiver mau. Ficarei muito feliz se reencontrar a Silvina.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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