O lusco e o fusco

Caro amigo

Cheguei uma noite destas, já madrugada. Saí de fininho, sem ninguém me perguntar se queria ajuda nas malas ou se precisava de táxi, coisa rara. E percebi que os dias que aí vinham não iam ser fáceis, pelo calor e humidade que se agarraram a mim mal deixei o avião. Ainda cá andam.
É por isso que ainda ontem, por exemplo, num bar ao fim da tarde, onde me encontrei com um amigo, pedimos dois cafés e uma garrafa de litro e meio de água fresca. Bebo litros e litros de água por dia e desespero quando me dizem que enquanto não voltar a chover o tempo vai ficar assim. Estamos condenados por aqui a andar ensopados, de uma maneira ou de outra.
Mas de resto, caro amigo, tudo continua calmo por aqui. Percebi também isso quando, na noite que cheguei, liguei aliviado o ar condicionado do carro e a rádio começava a passar uma música de Joe Cocker, Up Where We Belong. Lembras-te? Aquela do filme Oficial e Cavalheiro, coisa para noites que não acontece nada, melosa e com 400 anos, a dizer-me que se me lembro dela e do filme é porque já não sou propriamente um jovem.
Serve-me de consolo que aqui, com esta temperatura, somos todos iguais, novos ou velhos, transpirando que nem loucos, e já agora indefesos perante a violência que continua por cá. Ainda ontem, pela noitinha, foi alvejado mortalmente o motorista de um autocarro, sem aparente motivo, se é que alguma vez pode haver um motivo para coisas destas.
A Praia, para quem acaba de chegar de Lisboa, é uma cidade escura. A maior parte das ruas estão mal iluminadas ou nem sequer estão, e quando chega o lusco-fusco as pessoas de bem refugiam-se em casa. A noite, cada vez mais, parece-me, é quando os maus saem à rua, a noite é deles e a Praia caminha com passinhos curtos para uma cidade perigosa e indefesa.
Sei que por aí, por Portugal, as coisas não vão bem igual. Espero que aqui não se caminhe para pior. Porque o calor às vezes faz mal à cabeça das pessoas. Amolece-as. Embrutece-as. Confunde-as. Baralha-as. Tolda-as. E o lusco-fusco não resolve nada porque faz tanto calor de dia como de noite. Ainda assim tenho para mim que eles não estão inocentes. Porque a maior parte dos disparates acontecem quando chegam. Só ainda não descobri quem é o mau. Se o lusco se o fusco. Se souber digo-te.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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