O lusco e o fusco
Publicado por Fernando Peixeiro 11 Setembro 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Cheguei uma noite destas, já madrugada. Saí de fininho, sem ninguém me perguntar se queria ajuda nas malas ou se precisava de táxi, coisa rara. E percebi que os dias que aí vinham não iam ser fáceis, pelo calor e humidade que se agarraram a mim mal deixei o avião. Ainda cá andam.
É por isso que ainda ontem, por exemplo, num bar ao fim da tarde, onde me encontrei com um amigo, pedimos dois cafés e uma garrafa de litro e meio de água fresca. Bebo litros e litros de água por dia e desespero quando me dizem que enquanto não voltar a chover o tempo vai ficar assim. Estamos condenados por aqui a andar ensopados, de uma maneira ou de outra.
Mas de resto, caro amigo, tudo continua calmo por aqui. Percebi também isso quando, na noite que cheguei, liguei aliviado o ar condicionado do carro e a rádio começava a passar uma música de Joe Cocker, Up Where We Belong. Lembras-te? Aquela do filme Oficial e Cavalheiro, coisa para noites que não acontece nada, melosa e com 400 anos, a dizer-me que se me lembro dela e do filme é porque já não sou propriamente um jovem.
Serve-me de consolo que aqui, com esta temperatura, somos todos iguais, novos ou velhos, transpirando que nem loucos, e já agora indefesos perante a violência que continua por cá. Ainda ontem, pela noitinha, foi alvejado mortalmente o motorista de um autocarro, sem aparente motivo, se é que alguma vez pode haver um motivo para coisas destas.
A Praia, para quem acaba de chegar de Lisboa, é uma cidade escura. A maior parte das ruas estão mal iluminadas ou nem sequer estão, e quando chega o lusco-fusco as pessoas de bem refugiam-se em casa. A noite, cada vez mais, parece-me, é quando os maus saem à rua, a noite é deles e a Praia caminha com passinhos curtos para uma cidade perigosa e indefesa.
Sei que por aí, por Portugal, as coisas não vão bem igual. Espero que aqui não se caminhe para pior. Porque o calor às vezes faz mal à cabeça das pessoas. Amolece-as. Embrutece-as. Confunde-as. Baralha-as. Tolda-as. E o lusco-fusco não resolve nada porque faz tanto calor de dia como de noite. Ainda assim tenho para mim que eles não estão inocentes. Porque a maior parte dos disparates acontecem quando chegam. Só ainda não descobri quem é o mau. Se o lusco se o fusco. Se souber digo-te.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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