Caro amigo
É raro o dia em que não vejo um homem na subida para a Achada de Santo António a esgaravatar a calçada e a apanhar pequenas pedras, que limpa e sopra, e volta a soprar, para as guardar depois. Está lá sempre, o dia todo, mesmo à hora de maior calor, escolhendo as suas preciosas pedras. São os loucos de Lisboa, caro amigo, mas são também os loucos da Praia. E não só.
Este de quem te falo, ainda jovem, conheço-o há muito dali, por onde passo pelo menos quatro vezes por dia. Já o vi algumas vezes na praia, a passear pela areia à beira mar, conversando sozinho, às vezes rindo, e de tempos a tempos dando uma valente chapada nele próprio. Ontem, pela primeira vez, vi-o de noite. Debaixo de um candeeiro, agachado, unhas cravadas no chão, buscando pedrinhas, fazendo horas extraordinárias.
Dirijo até casa a pensar nele. Onde irá depois que sai dali? Onde dorme? O que come? Que vidas são estas que a noite da Praia esconde e onde se escondem? Não tem família? Amigos? Alguém que olhe por ele?
E leva-me isto a falar-te de outras vidas que a Praia esconde, idênticas às que tu aqui há dias me falavas, quando me contavas do frio que fazia aí. São os que vivem na rua, que dormem em qualquer vão de escada, que comem o que calha e que o futuro é só sobreviver.
O caso do Da Guiné. Não sei o nome dele porque todos lhe chamam Da Guiné. Porque veio para Cabo Verde quando a Guiné-Bissau entrou em guerra e por cá ficou. Lava carros, pede dinheiro, desenrasca-se. “Eu durmo além, naquela casa”. Apontou para a casa mas queria dizer a entrada, ali perto de um bar do Plateau, no centro da Cidade, onde ronda a entrada e saída de turistas, contando histórias tristes para os amaciar e tornar mais gorda a esmola.
Cabo Verde, disse-me ainda há bem poucos dias a presidente do Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente, Marilena Baessa, tem cada vez mais crianças abandonadas, agora fruto de um fenómeno novo: filhas de mães invisíveis, mulheres que dão nomes e moradas falsas na maternidade e que depois saem de fininho deixando o bebé e nunca mais dão sinal de vida.
São jovens que engravidaram por acaso, que esconderam a maternidade, que têm filhos a mais e comida a menos.
Aqui na Praia, só no ano passado, o Centro de Emergência Infantil acolheu 109 crianças. Mais 38 do que em 2007 e a maior parte vítimas de abandono.
Marilena espanta-se. Com este fenómeno de mães invisíveis, que nunca mais ninguém encontra. Com a passividade da sociedade civil que não denuncia casos de crianças abandonadas, de crianças sem registo de nascimento, de crianças violadas, até sexualmente.
Porque ela acha que os casos de abusos sexuais estão a aumentar, ainda que as denúncias tenham diminuído na mesma proporção com que aumentou o interesse da imprensa por casos desses. Porque ela acha que por ser Cabo Verde um meio pequeno é muito fácil estigmatizar uma pessoa. Porque ela acha que quem é estigmatizado é sempre a vítima e porque acontece com demasiada frequência a impunidade do violador.
“Há alguns que defendem que seja uma questão cultural… Abuso sexual, pedofilia, incesto… não é questão cultural é doença da sociedade”. É a indignação de Marilena Baessa, que quer até ao fim de Março ter aqui na Praia uma casa para acolher crianças de rua, mais de 100, segundo os últimos dados disponíveis.
Não é só o Da Guiné. Rondam o cais, andam pela porta do supermercado, circulam pelo mercado de Sucupira. Estou farto de as ver. Porque de dia são tão visíveis como o homem das pedrinhas.
Um abraço
Fernando Peixeiro

