Caro amigo
Falei-te de Codé-di-Dona e tu pediste-me que, quando o encontrasse, lhe contasse dos homens que tocam pedras. Poderei faze-lo. E tu diz a esses tocadores que quando lhes faltar o material que venham até Cabo Verde, onde pedras é o que não falta. Duvido que venham, como duvido que Codé se entusiasme com a ideia, agora que as cabras voltaram a ser os seus principais ouvintes.
Diz-se, caro amigo, que a História se repete. Eu diria que ela anda às voltas. É como um carrossel que nos faz girar e nos leva, mal damos por isso, ao ponto de partida. Parece ser assim com Codé-di-Dona: começou por tocar gaita para as cabras e agora, a poucos dias de fazer 67 anos, lá anda ele por S. Francisco, dando música a outras cabras, na esperança de que estas não lhe morram por comerem tanto plástico, das poucas coisas mastigáveis que por ali existem.
Não que Codé tenha perdido o jeito. Continua a tocar lindamente e um dos seus filhos afina com ele nos ferrinhos. E gosta.
O “pai” do funaná também, claro está. Mas agora quem o ouve já só são as cabras. “Às vezes vou tocar a festas”, disse-me ele há dias, não escondendo a esperança de que ainda apareça alguém que o desafie para um concerto a sério ou para gravar um disco.
Mas o que é mais triste em tudo isto é que Codé também não ajuda nada. No ano passado ainda veio tocar à Praia, no festival anual de música da Gambôa. Diz quem assistiu que quase passou despercebido. O que não passou despercebido foi estar com um copito a mais encima do palco.
Num dos dias que falei com ele, uma terça-feira, depois de almoço, também não passava despercebido. Arrastava as palavras, eu perguntava-lhe uma coisa e ele respondia-me outra ou então ficava longos minutos parado, um gesto a meio, uma lembrança que não se desenovelava em sons, um olhar meio turvo, consequência do grogue, a tal bebida alcoólica muito famosa aqui em Cabo Verde.
Codé, em tempos, trocou uma cabra por uma gaita e disse que nunca faria ao contrário. “Uma cabra teria mais cabras e mais cabras é mais trabalho”. A gaita era o seu futuro. A cabra o passado. Então porque voltou este homem a apascentar cabras? Porque regressou ao passado, conformando-se com a queda da sua estrelinha e, ao que parece, preferindo ficar ali parado, a vê-la descer no firmamento.
O álcool, caro amigo, é um problema aqui. Diz-se que é típico da insularidade. A verdade é que, há tempos, para entrevistar um pescador, precisei de ir a sua casa três vezes. Só à terceira o encontrei sóbrio.
“Às vezes vou tocar a festas”. Este homem que já foi disco de ouro, que já cantou e tocou por todo o país, por Portugal, por França ou pela Suiça, que fez parte do famoso grupo Simentera e viu outros, como os Bulimundo ou Finaçon, gravarem músicas suas.
Fraco e envergonhado consolo, onde até os discos de prata e de ouro estão guardados, escondidos, e não exibidos orgulhosamente.
Consolo só para as cabras, porque com boa música os plásticos até pode ser que tenham um sabor especial.
Mas não quero acreditar que o amargo de boca de Codé seja só do grogue. Um feliz aniversário para Codé-di-dona, no dia 10 de Julho.
Um abraço triste
Fernando Peixeiro

