O homem da gaita -1

Caro amigo,

já falamos de chinelos e de botas, de cães e das cabras que comem os plásticos presos nas acácias. Hoje não te vou falar de férias no sul de Portugal ou de acampamentos selvagens mas partilhar contigo a história de um músico cabo-verdiano. Com uma gaita e uma cabra pelo meio!
Codé di Dona. Para muitos é quase como o “pai” do funaná, um estilo de música típico aqui de Cabo Verde, basicamente à base de concertina e ferrinhos, muito ritmada e popular.
A história de Codé gira à volta da concertina, que aqui se chama gaita. É uma história alegre mas também triste e quase tenho receio de, não sabendo como contá-la, não saber também mostrar-te o quanto e porquê é alegre e triste. Tu depois me dirás.
Codé-di-dona nasceu em S. Francisco, aqui no interior da ilha de Santiago, em 1940. Mal conheceu os pais, de quem nem o nome se lembra, e foi criado pela avó, o mais novo de uma família numerosa e que por isso lhe ficou o “nominho” Codé-di-dona, que usa até hoje. Confesso-te que nem sei o seu verdadeiro nome e julgo que poucos o saberão.
Para o caso tanto faz. Digo-te antes que Codé foi pastor e agricultor na sua infância e juventude, sem tempo para ir à escola e no tempo em que as chuvas por aqui eram mais abundantes e havia ainda alguns pastos para as cabras e vacas.
Codé lembra-se bem desses tempos, descreve a ervinha verdejante que bordejava os riachos há 50 anos, o pasto que deliciava as cabras mesmo quando seco. Era bonito mas Codé queria mais e um dia trocou uma cabra por uma gaita velha, na qual ia praticando enquanto por perto as cabras restantes, naturalmente mais felizes, iam apreciando o pasto com sabor a funaná.
Codé fazia assim: ouvia as músicas e depois tentava tocá-las. Diz que tinha uma memória prodigiosa e conseguia depois, sem muito esforço, reproduzir as músicas dos outros. E enquanto olhava pelas cabras ia compondo as suas próprias músicas, que também decorava, para embevecer as raparigas.
Quando tinha uns 19 anos e algum tempo de tocar a gaita pelas ribeiras Codé aventurou-se mais um bocadinho. A gaita estava gasta, de tanto se tocada, e vai daí toca de a trocar por outra, quase nova, que um emigrante acabado de chegar de São Tomé e Príncipe trazia na bagagem. Codé nada tinha para lhe oferecer e fez um negócio que faz lembrar um pouco aquilo a que chamamos hoje, na economia, o “mercado de futuros”. Codé ficou com a gaita e o homem ficaria com 22 quartas de milho (um bidão cheio) de uma colheita que o pastor, agricultor e músico ainda iria fazer. O risco não era grande porque o ano agrícola corria de feição.
Com a nova gaita e todo o talento do mundo Codé começou em pouco tempo a abrilhantar festas de baptizados. “Tornei-me famoso, tinha muitas namoradas. Mas eu só queria as mais bonitas”.
Esse foi um dos seus confessos objectivos quando tocava a gaita: as mulheres. Mas também outros mais singelos: “era para fazer alegria às pessoas”.
Com o tal talento, compondo músicas (a maior parte dedicada a mulheres), que decorava já que as não sabia escrever, a fama de Codé expandiu-se em círculos e chegou à capital e depois a outras ilhas. Por essa altura deu-lhe para criticar o colonialismo e o governo de Lisboa: “No tempo colonial eu era proibido porque criticava. Quando se fazia um baptizado de uma criança eu só podia ir à igreja, porque para a festa estava proibido”.
A polícia do antigo regime tomou-o de ponta. Um dia chegou a multá-lo porque estava a tocar em casa até altas horas, numa festa que organizara sem participar às autoridades. Não pagou, justificando que não era uma festa organizada porque não cobrara dinheiro de entradas. “Cheguei a tocar noites inteiras em festas, porque os convidados eram de longe e como não tinham onde dormir nem podiam ir para casa tinham de passar o tempo a dançar”, contou-me há dias.
Nada se arrepende este homem. “A gaita deu-me muita alegria, muita amizade”, diz-me convincentemente. E eu acredito.
Em 1996, de sucesso em sucesso, já uma referência na música cabo-verdiana, Codé-di-dona gravou o primeiro disco, Kap Vert, e dois anos depois, com um disco chamado Codé-di-dona, foi disco de ouro em Portugal.
E tudo começou com uma cabra e uma gaita.
Bonito, caro amigo, mas eu disse-te que a história de Codé era também triste. Amanhã explico-te porquê.

Um abraço alegre

Fernando Peixeiro


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