O futebol é que nos une as mãos

António,

Quando estava em Timor-Leste, em 1999, depois da destruição daquele país, era frequente ver os timorenses, sentados pelo chão, à beira-mar em frente ao Palácio do Governador. Nem um, nem dois, centenas, pura e simplesmente a ver passar os carros. Parecia até que todos estavam a fazer aquele jogo das matrículas, tão comum aqui há uns anos entre os mais novos, quando não havia nada para fazer.

Um dia perguntei ao nosso motorista, o Zé Lai, porque é que aquela gente toda não estava a trabalhar quando tinham todo um país para reconstruir. O Zé fez um gesto de impaciência e respondeu assim: “ó senhor… o timorense é como o português, gosta é de beber a sua cervejinha, ao fim da tarde, de ficar na conversa, o timorense não gosta de trabalhar”.

Calei-me. Nunca me tinha ocorrido que os portugueses não gostassem de trabalhar e que gostassem era de beber uma cervejinha ao fim da tarde.

Até tinha uma ideia diferente. Mas se o timorense é como o português, ali estavam aquelas centenas a dar toda a razão ao Zé Lai.

Nunca mais me esqueci. E já pensei nessa conversa várias vezes aqui, na Cidade da Praia, capital de Cabo Verde, cada vez que vejo mais uma semelhança entre o cabo-verdiano e o português.

 Por isso lamento desiludir-te mas na verdade vim encontrar aqui outro povo como o português. Que gosta de saber da vida dos outros, que gosta de a comentar, que gosta de uma boa coscuvilhice, principalmente se meter qualquer coisa picante pelo meio.

Aqui as pessoas não andam de mão dada, dão antes as mãos na arte de falar dos outros, especialmente porque se trata de um país com menos de meio milhão de pessoas, em ilhas, onde é fácil conhecer-se toda a gente.

Aqui gosta-se muito, por exemplo, de dizer mal dos portugueses, esses mesmo a quem os cabo-verdianos copiaram nos defeitos, não percebendo que quando estão a “afiar a língua” na “merda dos portugueses” como por vezes apelidam, estão exactamente a ser como eles, os tais europeus que adoram falar da vida alheia, como tu te queixas.

Mas aqui também, como nós, é desporto favorito dizer mal do governo e da falta de condições do país, da câmara, do vizinho do lado, do empregado do café em frente, do polícia, dos tios, dos cães que infestam as ruas, das praias…

Ficaríamos aqui o dia todo. Para veres, os cabo-verdianos são tão portugueses que ignoram o campeonato nacional de futebol e fazem dos jogos portugueses os temas de todas as conversas. Julgas que alguém aqui é do Futebol Clube da Praia? Ou do Mindelense? Naaaa caro amigo.

Aqui são todos do Benfica, do Sporting ou do Porto. Depois há outros, poucos, que são do Boavista ou da Académica. Todos adeptos fervorosos.

E agora imagina: aqui ganha o campeonato de futebol uma equipa que veste de verde, equipamentos e bandeiras iguais às do Sporting. Grande derrotada uma equipa que veste de vermelho. Em Portugal, na mesma noite, com uma hora de diferença, ganha o Benfica. E o que é que vês nas ruas? Carros enfeitados com bandeiras vermelhas, um mar de gente no centro da capital, por todas as ilhas, vestidos de vermelho, cachecóis, bandeiras, apitos, buzinadelas, gritaria. E se alguém se lembra de vir comemorar a vitória da equipa da casa é afinal mais “um lagarto”.

Já aconteceu isto. Pelo que me contaram. Mas já assisti eu a grandes discussões de futebol, luso claro está, em que fiquei envergonhado com o meu défice de informação futebolística nacional em relação a qualquer cabo-verdiano.

E às segundas-feiras, nos locais de trabalho, as discussões mais acaloradas são sobre as peripécias do fim-de-semana desportivo em Portugal. Já vi isso. E acho que nessas alturas nem uma bela história de quem anda de mão dada com quem iria vingar. Portugal no seu melhor. Ou pior.

Um abraço.

Fernando Peixeiro