O fantasma da frigideira
Publicado por Fernando Peixeiro 18 Abril 2007 em Cabo Verde.Amigo António,
alguém ainda hoje, por esse país, poderá ter pesadelos com uma frigideira? Alguém poderá sentir suores frios quando ouve essa palavra? Ou sentir-se a sufocar? Um calor de mais de 50 graus e um ar quase irrespirável? Um chão de cimento, um púcaro de água salobra para beber, o cheiro horrível de fezes e urina a sair de um balde a um canto? 20 dias, 50 dias, 130 dias assim…
Não te estou a falar de campos de concentração como Auschwitz, Dachau ou Treblinka, não senhor. Estou a falar-te mesmo do Tarrafal, a prisão na localidade do mesmo nome que o tal senhor que foi há tempos considerado o grande português mandou construir aqui na ilha de Santiago. Tens de vir cá ver e já agora trás toda essa gente que votou em Oliveira Salazar.
Na prisão, onde hoje pagas 100 escudos para uma visita, o que mais impressiona não é tanto as camaratas, ainda pouco degradadas, a cozinha, a lavandaria ou as casas de banho, na verdade uma fila de buracos, com um local para os pés, onde cada preso ficava praticamente com o nariz no traseiro do companheiro da frente.
Só visto, caro amigo, só estar lá e sentir. Chega a ser doloroso imaginar o que se passou ali ao longo de 20 anos, que foi o que durou o Tarrafal, que Portugal só encerrou por pressões internacionais.
E o que mais impressiona nem é aquela aridez do local, ou tu saberes que aquela gente morria ali de paludismo e de doenças intestinais porque só lhe davam água salobra. Não é sequer saber que o médico do campo dizia que não estava ali para tratar doentes mas sim para passar atestados de óbito. Ou que ali o isolamento era total e que os presos não tinham nenhuma notícia do que se passava no resto da ilha e no mundo. Nem as celas de isolamento, onde um homem de um metro e oitenta não cabia de pé. O que mais impressiona é a frigideira.
Um edifício todo de cimento e uma porta de chapa, com meia dúzia de buraquinhos redondos na parte de cima. Eis a frigideira. Centenas passaram por lá, perderam lá meses de vida, num calor que chegava a ultrapassar os 50 graus, empestado de cheiro a suor e a fezes, com a escassa alegria de uns segundos de ar fresco quando a porta era aberta pelos guardas para lá deixar um prato de arroz e uma caneca de água. O luxo diário.
E lá dentro os homens, vários, nus, suando, cozendo, morrendo devagarinho. Para pagar a ousadia de não concordarem com o senhor António de Santa Comba.
Eu vi-os amigo. E tu irás vê-los também se um dia visitares a bela cadeia do Tarrafal, que por acaso até tem ao lado uma das praias mais bonitas da ilha de Santiago. Essa eles não apreciavam porque os muros altos, o fosso e a cerca electrificada só deixava ver os guardas lá no alto, que, diz-se, gostavam quando os presos tentavam fugir. É que a zona é tão inóspita que nem passarinhos por ali paravam para treinar a pontaria.
Ontem, quando visitei a cadeia, por acaso ouvi o chilrear de alguns. Fiquei a pensar que se calhar nessa altura até os pássaros tinham vergonha do que ali se passava. Ou medo. De o seu cantar ser entendido como uma conspiração contra o senhor António e de ainda irem, por isso, parar à frigideira.
Um abraço caloroso
Fernando Peixeiro



0 Responses to “O fantasma da frigideira”
Please Wait
Leave a Reply