O fantasma da frigideira

Amigo António,

alguém ainda hoje, por esse país, poderá ter pesadelos com uma frigideira? Alguém poderá sentir suores frios quando ouve essa palavra? Ou sentir-se a sufocar? Um calor de mais de 50 graus e um ar quase irrespirável? Um chão de cimento, um púcaro de água salobra para beber, o cheiro horrível de fezes e urina a sair de um balde a um canto? 20 dias, 50 dias, 130 dias assim…
Não te estou a falar de campos de concentração como Auschwitz, Dachau ou Treblinka, não senhor. Estou a falar-te mesmo do Tarrafal, a prisão na localidade do mesmo nome que o tal senhor que foi há tempos considerado o grande português mandou construir aqui na ilha de Santiago. Tens de vir cá ver e já agora trás toda essa gente que votou em Oliveira Salazar.
Na prisão, onde hoje pagas 100 escudos para uma visita, o que mais impressiona não é tanto as camaratas, ainda pouco degradadas, a cozinha, a lavandaria ou as casas de banho, na verdade uma fila de buracos, com um local para os pés, onde cada preso ficava praticamente com o nariz no traseiro do companheiro da frente.
Só visto, caro amigo, só estar lá e sentir. Chega a ser doloroso imaginar o que se passou ali ao longo de 20 anos, que foi o que durou o Tarrafal, que Portugal só encerrou por pressões internacionais.
E o que mais impressiona nem é aquela aridez do local, ou tu saberes que aquela gente morria ali de paludismo e de doenças intestinais porque só lhe davam água salobra. Não é sequer saber que o médico do campo dizia que não estava ali para tratar doentes mas sim para passar atestados de óbito. Ou que ali o isolamento era total e que os presos não tinham nenhuma notícia do que se passava no resto da ilha e no mundo. Nem as celas de isolamento, onde um homem de um metro e oitenta não cabia de pé. O que mais impressiona é a frigideira.
Um edifício todo de cimento e uma porta de chapa, com meia dúzia de buraquinhos redondos na parte de cima. Eis a frigideira. Centenas passaram por lá, perderam lá meses de vida, num calor que chegava a ultrapassar os 50 graus, empestado de cheiro a suor e a fezes, com a escassa alegria de uns segundos de ar fresco quando a porta era aberta pelos guardas para lá deixar um prato de arroz e uma caneca de água. O luxo diário.
E lá dentro os homens, vários, nus, suando, cozendo, morrendo devagarinho. Para pagar a ousadia de não concordarem com o senhor António de Santa Comba.
Eu vi-os amigo. E tu irás vê-los também se um dia visitares a bela cadeia do Tarrafal, que por acaso até tem ao lado uma das praias mais bonitas da ilha de Santiago. Essa eles não apreciavam porque os muros altos, o fosso e a cerca electrificada só deixava ver os guardas lá no alto, que, diz-se, gostavam quando os presos tentavam fugir. É que a zona é tão inóspita que nem passarinhos por ali paravam para treinar a pontaria.
Ontem, quando visitei a cadeia, por acaso ouvi o chilrear de alguns. Fiquei a pensar que se calhar nessa altura até os pássaros tinham vergonha do que ali se passava. Ou medo. De o seu cantar ser entendido como uma conspiração contra o senhor António e de ainda irem, por isso, parar à frigideira.
Um abraço caloroso

Fernando Peixeiro


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