O drama das flores de estufa

Caro amigo

É tudo uma questão cultural. Quem sabe se dessa vez, quando por sorte (questão cultural, lembra-te) te foi parar uma barata fresquinha à boca, se a tivesses comido não descobririas um novo e agradável sabor. Lembro-me de no ano passado, no Vietname, ver aquela gente comer coisas indescritíveis. E não acredito que a cor amarelada que têm seja por isso.
Felizmente que em Cabo Verde a gastronomia é muito idêntica, para não dizer igual, à ocidental. Se aqui fosse como no Vietname não veria tantos cães na rua e muito menos mortos, sabe-se lá porquê. Hoje vi dois, num passeio, ontem vi outro. E bastava o pessoal aqui mudar um bocadinho de hábitos alimentares para andar agora de barriga cheia, tal é a quantidade de gafanhotos que nos saltam à frente, mal pomos um pé numa zona menos urbana.
Por mim digo-te: tivesse eu conseguido aculturar-me um bocadinho na viagem ao Vietname e não te andaria aqui a queixar-me das baratas e dos ratos lá de casa. Além do dinheiro que poupava!
Mas não caro amigo. Para mim a questão é mais do que cultural. É física. Quando penso que já sou cabo-verdiano e desato a comer em certos locais lá vem uma bela diarreia a lembrar-me que, aqui, sou “uma flor de estufa”. Para veres onde a coisa chegou agora, quando vou à praia, dou um mergulho rápido de boca fechada, farto-me de cuspir, e saio logo a seguir. Um nojo! Mas antes cuspir do que fazer o que muita gente faz aqui na praia. E é por causa deles fazerem o que fazem que eu, qualquer dia, acabo a tomar banho de escafandro.
Mas já devo ter comido muita porcaria. Na Coreia do Sul há grandes probabilidades de que tenha comido cão, por não conseguir ler os caracteres que estavam à frente de cada prato de carne. Na Austrália comi canguru, por opção, mas não repito. E no Peru comi uma coisa parecida com gato mas que, garantiram-me, não era gato.
Há sensivelmente um ano, num jantar com um amigo tailandês, enojei-o quando lhe disse que em Portugal se comiam os testículos dos porcos, mexidos com ovo. Achou incrível. Como eu achei incrível que eles, na Tailândia, achassem um petisco os pénis dos bois. E mais do que incrível achei nojento ver no Vietname pessoas a comer, deliciadas, ovos de pato cozidos. Nada de especial não fossem ter uma particularidade: eram cozidos quando o pato já estava em fase de crescimento.
É uma questão cultural de facto e assim entende-se. Para mim é muito pior coisas que acontecem aqui. Esta semana, num dos restaurantes dos mais concorridos da Praia, com grande percentagem de estrangeiros “flores de estufa”, uma das responsáveis disse-me que tinha de provar sempre o gelo de todos os sacos que abria.
É que, contou-me a mulher, há por aí quem ande a vender sacos de gelo todos bonitinhos que lá dentro têm água do mar, se calhar da tal praia onde eu cuspo e outros… enfim… sabes o que fazem.
Deve ter sido por isso que uma amiga minha bebeu uma coca-cola com gelo e foi parar ao hospital. Mas há mais. Produtos alimentares fora de prazo à venda é também comum. Ainda hoje um jornal conta que há pessoas aqui na Praia a comprar e consumir hambúrgueres cujo prazo de validade terminou há um ano. Assim não há flor de estufa que aguente!
Por mim, acho que a partir de agora, quando almoçar ou jantar fora, só bebo vinho ou cerveja. E pelo sim pelo não vou tentar perceber qual o prazo de validade das baratas lá de casa. Sei lá se os meus hábitos culturais não mudam um dia destes.

Um abraço gastronómico
Fernando Peixeiro


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