O Desastre da Assistência
Publicado por Fernando Peixeiro 17 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Falaste-me, na tua última carta, de duas ou três coisas com as quais não concordo e vou explicar-te porquê. Desde logo quando me dizes que se os cabo-verdianos semeassem o milho e não chovesse várias anos seguidos deixariam de o fazer. Pois não o fariam. E se eu te dissesse que eles semeiam o milho, às vezes, três vezes no mesmo ano? E depois é pior caírem tectos do que não chover? Eu acho que pior que não chover é caírem muros!!
O milho, em Cabo Verde, foi, durante muitos e muitos anos, o principal sustento desta gente. Matava a fome mas era também sinal de riqueza. Hoje, por mais que se diga que há alternativas ao milho, em meados de Julho os camponeses sobem as encostas e começam a meter os bagos à terra, nessa altura seca. É a sementeira do pó. Depois, se demora muito a chover e o grão já não está em condições, faz-se a segunda sementeira, a re-sementeira. E então chove e o milho nasce. Mas imagina que logo a seguir volta o calor e o milho morre. Então os camponeses apressam-se a mandar mais milho à terra, porque, como se costuma dizer, à terceira é de vez.
Todos os anos, desde há muito, é assim. E já aconteceu, caro amigo, que durante alguns anos pura e simplesmente não choveu. E sabes o que aconteceu? Simples. Os cabo-verdianos morreram às centenas, aos milhares, às dezenas de milhar. Dos campos, desesperados, invadiram as cidades, em busca de qualquer coisa para comer, em busca de uma saída, que para muitos foi emigrar para a São Tomé, para trabalhar nas roças do cacau. Alguns ficaram por lá, até hoje.
Era o final da década de 40, de 46 a 49. A mortandade foi tal que alguns países se apressaram a oferecer ajuda. Mas Salazar recusou. E não fez nada, deixou-os morrer. De São Nicolau chegavam milhares de mortos de fome, em barcos, a São Vicente, onde as tropas aí aquarteladas recebiam comida e repartiam com o povo.
Pelas ruas da Praia também se morria de fome. Muitos caíam em qualquer sítio e, sem forças para se levantar, ali morriam e ali ficavam, à espera que o cheiro dos seus corpos em decomposição os denunciasse.
Na Praia havia um local, um barracão do ministério das Colónias, que servia uma refeição por dia a cerca de 2.500 cabo-verdianos famintos. Ao lado do barracão havia um muro, alto, de sete metros, feito (mal) de seixo da praia. No dia 20 de Fevereiro de 1949, às 12 horas, o muro ruiu, sem aviso, e matou 232 pessoas. Ainda hoje o caso é conhecido por “o Desastre da Assistência”
É triste de mais. Há tempos, no Bangladesh, chuvas intensas deixaram milhares de pessoas sem abrigo e sem comida. E um dia, quando centenas delas esperavam ordeiramente em fila para receber alguma coisa para comer, um raio caiu mesmo no meio e matou algumas dezenas. Se acreditares em Deus terás de pensar que Ele estava muito zangado com aquele povo.
O mesmo se passou aqui. Muito mal se terá portado esta gente para merecer tamanha ira. De Deus e de Salazar.
Eu quanto ao Bangladesh não sei, mas aqui a maior parte das vítimas era crianças. Por isso te digo, pior que não chover só mesmo que caia um muro. E garanto-te, não sei se há mais muros para cair mas sei que ainda que não chova o milho continuará a ser deitado ao pó.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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