O cheque de Tito
Publicado por Fernando Peixeiro 4 Abril 2007 em Cabo Verde.Caro amigo,
falares de Tito Paris obriga-me a contar-te um caso que se passou aqui, recentemente, entre o cantor que há muito vive em Portugal e o ministro da Cultura, Manuel Veiga, e que acabou de uma forma estranha. E sou também obrigado a dar-te razão quando me falas que o músico é de poucas palavras. Tentei chegar à fala com ele. Atendeu-me o telefone e, simpaticamente, disse-me que não tinha nada a dizer.
Bem… pelo menos disse alguma coisa.
Tudo porque Aristides José Paris, Tito Paris, autor de “Nha pretinha”, homem de poucas palavras, decidiu dar uma entrevista a um jornal daqui de Cabo Verde e decidiu criticar a política cultural do governo. Disse, por exemplo, que se a música cabo-verdiana estava em extinção seria nas ilhas, onde já ninguém se lembra de Cesária Évora, de B. Leza ou dele próprio.
Mas disse mais, disse que Cabo Verde nunca investiu nele e que em Cabo Verde só se aposta nos artistas que são da “cor” do governo. Que esses sim, recebem 10 ou 20 mil contos de mão beijada, para fazerem o que quiserem.
E se Tito Paris é o que é hoje deve-o a Portugal, ao governo e ao povo, que o reconhecem e o acarinham. Palavras do próprio, que no ano passado, está a fazer um ano, propôs ao governo da Praia a realização de concertos com orquestra nas ilhas, para comemorar os 31 anos da independência. Tito queria um apoio do lado de cá que rondaria os 1.500 contos de Cabo Verde. O governo entregou ao representante do cantor um cheque de 200 contos.
Ora o ministro da Cultura viu a entrevista e ficou um bocadinho desagradado. Manuel Veiga não foi de modas e, no mesmo jornal, escreveu uma cartinha ao cantor a dizer-lhe que ele estava enganado, que o governo e os cabo-verdianos sempre o reconheceram, que a Cultura não tem nada a ver com partidos, que no arquipélago se reconhecem e acarinham os artistas de que ele falou e que alguns até já foram medalhados.
E mais, o governo de Cabo Verde é pobre e mesmo que quisesse não podia estar a dar “10 ou 20 mil contos” a quem pedisse, nem que fosse irmão do primeiro-ministro, simplesmente porque não tem. E Manuel Veiga lá lembrou, já no fim da sua cartinha, que o próprio Tito Paris recebeu um benefício simbólico de 200 contitos, confirmados com fotocópia de cheque que o jornal se encarregou de publicar.
Isto foi numa semana. Na semana seguinte o jornal trazia mais uma fotocópia de um cheque. Este de Tito Paris. O homem não gostou da resposta do ministro e remeteu o cheque à procedência. Ou melhor, sacou do livro de cheques e passou um, de 200 contos, em nome do Ministério da Cultura de Cabo Verde.
E para o ministro uma simples nota, que o cantor é de poucas palavras: “Devolvo por inteiro o apoio simbólico (200.000$00) do Ministério da Cultura, que nunca pedi e jamais recebi”.
E pronto. Tudo a limpo. Só ficou a dúvida sobre esta última frase “e jamais recebi”. Bem… Tito Paris recebeu o cheque. Se calhar queria dizer antes “e jamais usei”.
Digo eu, porque a frase não está correcta. Mas a gente desculpa porque Tito Paris é homem de poucas palavras.
Com votos de que sigas por aí cantando e rindo, despeço-me sem mais palavras, que isto de andar a comentar as discussões dos outros tem que se lhe diga.
Um pacífico abraço.
Fernando Peixeiro


