O cheiro de Cabo Verde

Caro amigo

Partilho contigo esse gosto e digo-te que o posso partilhar daqui de África, porque faz parte da “ementa” de qualquer supermercado daqui. Ao contrário do que se diz por aí não são fardos de lagostas que encontras nas lojas não senhor. A alimentação é só um dos muitos mitos que se criaram sobre Cabo Verde. E digo-te caro amigo, Cabo Verde não é nada daquilo que se julga por aí.
Para começar a famosa cachupa, uma espécie de cozido à portuguesa mas mais pobre e com milho. Julgas que as pessoas passam aqui a vida a comer cachupa? Naaaa! Engano. Come-se, claro, como se come em Portugal o cozido, mas não se come só isso.
Em Cabo Verde a dieta alimentar é muito idêntica à portuguesa, com excepção do arroz, que entra quase diariamente na mesa. De resto não vejo grandes diferenças nem pratos exóticos. Aliás, basta ires a um qualquer supermercado para ficares com essa certeza: os produtos que lá vês são os mesmos que verias em qualquer supermercado de Lisboa. As mesmas marcas, os mesmos frescos, os mesmos congelados, os mesmos gelados e sobremesas. De Portugal, a maior parte, de Espanha, de França ou do Brasil. As mesmas massas, o azeite, o pão, as mesmas cervejas e vinhos, os mesmos cereais.
Tenho para mim que Cabo Verde é uma sucessão de enganos aí na Europa. Cá comemos o bacalhau, pouco porque é caro e não porque não gostemos, e a lagosta não abunda, como se julga por aí, e quando aparece é tão cara como o bacalhau.
Os enganos começam logo com o próprio país a impô-los. Cabo Verde não é verde, é seco, é árido, é desolador, mesmo nas ilhas mais frondosas. Porque não há água, porque não chove.
A Cesária Évora. Outro engano! A mulher nem sequer cá vive há montes de anos e é menos passada nas rádios e televisão do que aí. Não é que não gostem dela, claro que sim! e também sabem que ela é quem mais divulga o nome do país no estrangeiro. Mas há por aqui muitos outros grupos, cantores, artistas que estão a surgir e que, embora não sejam mais do agrado estão pelo menos mais na moda.
E depois que não venhas à espera de um típico país africano, cheio de recordações e artesanato para encheres as prateleiras de tua casa e fazeres inveja aos amigos. Esta peça comprei em Cabo Verde, é feita de uma madeira muito resistente mas considerada a mais leve do mundo. Não! Não! Não! Cabo Verde basicamente não tem artesanato e o que podes comprar aqui são objectos importados do continente. E a roupa que se veste chega em contentores dos Estados Unidos e é vendida na rua, no mercado de Sucupira. Mais ocidental não podia ser.
Isto tudo a propósito do bacalhau, que é tão “nosso”, de Cabo Verde, como “vosso” de Portugal. E desculpa desiludir-te, se pensavas alguma vez vir de férias a África e escolhias Cabo Verde para isso.
Como dizia uma amiga minha há poucos dias, “isto só é África porque a maior parte dos habitantes são negros”.
Nem mais. Eu arriscava-me a dizer que, de todo, não é África. Porque os cabo-verdianos, além de partilharem a mesma língua que Portugal (nem todos, é certo) comungam também dos mesmos gostos culturais, arquitectónicos ou gastronómicos dos ocidentais.
É certo que há pequenas diferenças em relação ao ocidente, algumas até bastante curiosas e sobre as quais te falarei um dia, mas na matriz são ocidentais.
E quando, caro amigo, te forem com a história das lagostas, das ilhas verdes e do cheiro a África, podes rir-te. O cheiro de Cabo Verde, companheiro, é o cheiro de Portugal.

Um abraço com cheirinho a Lisboa

Fernando Peixeiro


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