Notícias de “cagação”
Publicado por Fernando Peixeiro 7 Junho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
É triste que pessoas andem dias para votar e outras que o podem fazer à porta de casa não se preocupem. Mas também é triste viver num país onde faz sempre calor, morar a dois minutos, a pé, da praia, e não puder ir molhar um pé que seja. É o que acontece na capital de Cabo Verde, nos dias que correm. Na capital, onde vive quase um terço da população deste país, deixaram poluir as praias de tal maneira que o melhor é esquecer o mar, aqui ao lado. O mar, ao que parece, só serve para “cagação”.
Ainda há tempos, a respeito de outro assunto, te dizia que “há coisas fantásticas”. Pois esta também é uma delas. Aqui há uns tempos andaram em obras numa ETAR e por isso, como se isso fosse desculpa, descarregaram dias e dias esgoto não tratado para o mar. O resultado foi a interdição das praias.
Agora, esta semana, estamos na mesma. Há um esgoto a céu aberto que vai dar direitinho ao mar, em frente do centro da capital, e parece que as autoridades e os responsáveis ainda não repararam.
Valha-nos a delegação de saúde da Cidade da Praia, que essa sim está a fazer o seu trabalho. Foi ela quem proibiu as pessoas de se banharem (ontem ainda andavam alguns corajosos dentro de água, hoje já não) e contou que aumentaram os casos de diarreia e doenças de pele, devido à cloaca em que transformaram este mar.
A água está contaminada com coliformes fecais, diz a delegação de saúde. Mas diz mais esta coisa espantosa, caro amigo: “devido ao vazamento de água de esgoto, mas também à utilização das praias Negra, Gambôa, Prainha, Quebra-Canela e a Praia em frente da ETAR como sentinas públicas”.
Quando li isto não entendi muito bem. Ou melhor, entendi mas não quis acreditar. Que raio! As habitações, os andares, as vivendas, aqui também têm casas de banho!
Mas é verdade, a delegação de saúde deu-se ao trabalho de pedir às pessoas para não defecarem nas praias. E se se deu ao trabalho é porque a coisa é séria. Não é porque se apanha uma pessoa de “rabo à vela” que se faz um comunicado.
Li isto e veio-me logo à memória uma lei antiga e muito cómica, que circulou aqui há uns tempos pelos mails, a proibir a “cagação” na ilha de Moçambique.
Depois disto andei a perguntar, discretamente, se é hábito a “cagação” nas praias daqui, até porque se é eu nunca dei por nada.
O inquérito revelou-se inconclusivo. Mas olha lá, se fosses adepto da “cagação” na praia ias contar-me?
Pelo menos a delegação de saúde promete mais vigilância. Fiquei mais aliviado. E por falar em aliviado: se criarem piquetes locais para patrulhar as praias à noite vou alistar-me. Caçar rabos de noite para de dia lavar o nosso na água do mar.
Um irritado abraço
Fernando Peixeiro



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