Caro amigo

Se há tipos de pessoas sobre as quais não gosto muito de te falar nas minhas cartas os políticos é um deles. Mas hoje não resisto a citar-te o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves. Há três dias pediu ao povo que deixasse de comer carne de tartaruga. É que de tartarugas sim, de essas gosto de falar.
E já deves ter notado que por diversas vezes lá venho eu lembrar-te que mares fora vivem uns animaizinhos simpáticos (lembras-te delas no Nemo?) que alguns cabo-verdianos, demasiados para meu gosto, teimam em matar quando elas põem uma patita na areia.
Mas as coisas, admito e desejo, têm vindo a melhorar. Em diversas ilhas começaram a surgir, nalguns casos espontaneamente, associações de defesa das tartarugas e há pouco tempo, o que aconteceu pela primeira vez, foram presos dois caçadores de tartarugas.
É certo que há mais de 10 anos que é proibido matar tartarugas em Cabo Verde, mas também nesse tempo nunca ninguém foi impedido ou penalizado por o fazer. Só que agora as coisas estão a mudar e se o governo pouco fez é outro tipo de penalização que começa a nascer, como as ervinhas mal cai uma chuvada, a penalização social.
E há três dias, num gesto que eu acho muito louvável, José Maria Neves pediu aos cabo-verdianos para que a partir de agora não comam “nem mais uma fatia de tartaruga”.
Aproveitando a inauguração da primeira Feira Ambiental do país (coisa bonita também), o primeiro-ministro não fez ameaças, não falou de novas leis, não criticou ninguém. Pediu.
“Um dos nossos desafios é o de que ninguém coma ou mate tartaruga a partir de agora. É um símbolo de Cabo Verde, da nossa beleza, da nossa grandeza. Cabo Verde deve ter um crescimento com forte sustentabilidade ambiental”.
Dito isto o primeiro-ministro pediu ainda ao povo que dê as mãos nesta cruzada, que proteja as tartarugas e que condene na praça pública não só aqueles que matam mas também os que comem a carne.
Tinha de te falar disto porque parece-me a mim que é sinal de que alguma coisa está a mudar. Pelas associações, pelos programas na televisão, pelas prisões e pelo desejo bem expresso do governo de que é preciso proteger o ambiente (pelo menos desejo).
As tartarugas mas também as praias, a gestão do lixo, o impacto ambiental, a apanha de areia… é certo que ainda se partem garrafas em qualquer lado, se deita lixo pelas janelas dos automóveis, se apanha areia na praia para construir casas. É certo que as praias ainda funcionam como casa de banho e que as acácias continuam desenfreadamente a parir sacos de plástico. Mas, caro amigo, tenho muita esperança em que as coisas estejam a mudar. E lá onde é preciso, na cabeça das pessoas.
José Maria, estou contigo. A partir de agora nem mais uma fatia. Se fazem favor.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Nem mais uma fatia, se fazem o favor”

  1. 1 rvn

    fernando,
    não tenho palavras para agora, disse-as todas aqui:
    http://setevidascomoosgatos.blogs.sapo.pt/1666034.html
    aceita um abraço atlântico, do

    rui vasco neto

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