Naturalmente, o homem enfureceu-se
Publicado por Fernando Peixeiro 22 Abril 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
hoje não te vou falar de árvores nem de outros seres vivos aparentemente irracionais. Por aqui a Internet continua morta ou quase morta e tenho de aproveitar, por isso, os momentos em que respira para te falar de Laura Spernacci. Italiana, 57 anos, divertida, generosa e amiga. Morreu na semana passada, vítima de espancamento. Foi o homem com quem vivia, na Cidade Velha, quem a matou.
Laura Spernacci estava há 11 anos em Cabo Verde, a maior parte deles com Val de Pina. Os dois tinham, na Cidade Velha, candidata a património da humanidade, um restaurante e uma discoteca e ainda faziam aguardente de cana, o grogue, que era vendida por toda a ilha de Santiago.
Não conheci a empresária, mas quem com ela privou diz que era muito popular e sempre pronta a ajudar quem necessitava. No dia em que soube da morte dela, ainda a Internet ia sobrevivendo neste país, apressei-me a mandar uma notícia para Portugal. O crime, ao que julgo, passou despercebido. Não tinha os contornos macabros da morte das outras duas italianas na ilha do Sal, em Fevereiro passado.
Pelo que pude perceber, Laura apanhava com frequência pancada do marido. Os moradores da Cidade Velha garantem que eles discutiam muito.
Esta semana um jornal de Cabo Verde, o “Expresso das Ilhas”, conta que desta vez Laura apanhou por ciúmes, mas também cita outra fonte que diz que Val de Pina quis sair de casa e regressar a casa dos pais e que foi na sequência de uma discussão que ele lhe bateu até à morte.
Conta o jornal que no meio dessa discussão Laura terá dado uma bofetada a Val. E depois vem o melhor, ora vê o que escreve o jornal: “Naturalmente, com a dignidade mexida, o homem enfureceu-se e exagerou na resposta dada a Laura”. Naturalmente.
Naturalmente? Perguntarás tu, caro amigo, de sobrolho franzido. Foi assim que saiu no artigo, assinado, imagina tu, por uma mulher, Kátia Pontes. Fico a pensar que esta jornalista acha natural que se uma mulher dá uma bofetada num homem este tem todo o direito de a matar.
Já aqui te falei, há tempos, dos casos de violência doméstica. Mas interrogo-me como é que não há mais ainda quando é uma mulher que escreve que um homem que leva um estalo fica com a “dignidade mexida” e por isso tem direito a enfurecer-se e a responder à altura.
Bem, neste caso, reconhece a jornalista, o homem exagerou. Se lhe tivesse partido os dois braços e as duas pernas se calhar até era bem feito, mas matou-a, pronto. Exagerou um bocadinho e está preso, porque se não a tivesse morto era bem possível e natural que fosse ela agora a estar detida, por mexer com a dignidade do homem.
O corpo de Laura Spernacci já está enterrado em Itália, Val de Pina, que eu saiba, está preso, e por aqui os dias seguem calmos. Até ver, porque o Benfica vai jogar daqui a pouco e se perde o caldo pode entornar-se. Rezo para que ganhe. Evita-se umas quantas discussões.
Agora imagina, amigo António, que algumas mulheres resolvem responder às provocações dos maridos irritados com a derrota. É isso mesmo que estás a pensar: naturalmente, vão ter de levar um enxerto de porrada.
Naturalmente, um abraço
Fernando Peixeiro



Pois é meu amigo… Mas, ó Peixeiro, acredita se quiseres, eu tenho uma amiga em Cabo Verde, que também é tua amiga, ou pelo menos conhecida que, um dia, em conversa, me disse estar destroçada porque já há algum tempo não tinha manifestações de afecto do namorado. Eu, curioso, ia dizendo: “Pois, já não te convida para jantar no Poeta… já não te liga duas a três vezes por dia…”. Que sim, dizia ela, mas isso nem achava muito estranho! Insisti. Resposta: “Já não me dá uma bofetada há mais de um mês!!!”.
Leva algum tempo para se ver para lá da cortina europeizada a sociológica realidade cabo-verdiana. Mas, com o tempo, todos os hábitos, até os mais telúricos, como a poligamia africana, vai ficando exposta, nem que seja pelos buraquinhos da tal cortina…
Abraços man
rb
Fernando!
Que grande homem és tu…Sim, só um grande homem, reconhece que bater não é um direito, e sim uma covardia.E que pequena jornalista, é a Kátia, qdo defende o homem, ou aquilo que se diz homem.
Li no Semana,um conetário de um leitor, qdo da morte das outras duas italianas, que elas tinho ido à Cabo Verde em busca de sexo, como se isso aliviasse a culpa, dos criminosos.
Eu adoro pretendo ir conhecer Cabo Verde, e fico feliz, que há homens, na sua terra que pensam como vc, que são capazes de ver além, muito além do machismo.Aqui no Brasil, as mulheres também apanham, e tb são mortas, que pena, e o pior disso, é que algumas mulherers pensam como a jornalista, que o homem mexido na sua dignidade tem o direito de matar.
Li também, que a mãe da jornalista doou, para as crianças caboverdianas, todo o patrimônio, que ela tinha em Cabo Verde. Que grande gesto,separar o joio do trigo, pq tenho certerza, que vcs de cabo Verde, na sua grande maioria, são como nós os brasileiros, integros, ordeiros e honestos, e que infelizmente, uma pequena minoria, mancha um povo todo.
Descobrei, vc aqui na net, porque fui em busca de saber o que acontecia, que eu não conseguia telefonar para Cabo Verde.Gostei de ti.
Abraço brasileiro.