Caro amigo

Às 13:45 de quarta-feira passada estava quase bêbado. Não que tivesse acabado de almoçar e bebido vinho ou cerveja. Pelo contrário. Sentado a uma mesa de uma casa com vista para o mar, na Cidade Velha, sem ter almoçado, acompanhava o meu anfitrião, 81 anos, num aperitivo, whisky, enquanto ele me falava da sua paixão por motas.
É assim o padre Paulo Campos, um português de nascimento mas cabo-verdiano de coração, que anda por estas terras desde 1954 e que aqui há-de morrer, se assim Deus o queira.
Já deu missa no antigo campo de concentração do Tarrafal, em S. Domingos, um concelho aqui da ilha de Santiago, nas ilhas do Maio e da Boavista. Agora há muito que é o padre da Ribeira Grande de Santiago, também conhecida por Cidade Velha, onde vive numa casa na encosta, rodeada de mangueiras e uma soberba vista sobre o mar.
Chega de jipe, ao lado do condutor, à hora de almoço e cumprimenta-me com ar agastado, confessando que já não se lembrava de me ter conhecido em tempos. Faz-me sentar num banco no escritório dele e eu peço-lhe que me fale da sua vida aqui pelas ilhas. Paulo Campos é agora um homem com o dom da palavra e uma memória prodigiosa. Lembra-se de datas, conta pormenores das suas viagens, fala de pessoas que conheceu, muitas já mortas. E divaga, entre o passado e o presente, entre o que pensa o que sente e o que quer, e eu ali a ouvi-lo, sem dar conta do tempo passar.
É então que se levanta, desce as escadas e fala com alguém, regressando depois a pedir desculpa pela sua falta de delicadeza e convidando-me a descer para tomar alguma coisa, um sumo que seja, diz, perante a minha recusa, porque se faz tarde, porque tenho outras coisas para fazer ainda e porque ainda nem almocei.
Cinco minutos depois ali estamos, no fresco da sala de jantar, com dois copos e uma garrafa de whisky na frente, bebida que faz bem ao coração, diz-me ele. Não sei se me fará bem ao coração mas não tenho dúvidas que à cabeça não, tanto mais que estou sem comer nada há cinco horas. Pormenores, porque ao espírito de certeza que me fará bem ouvir as histórias, as lembranças, de um padre que sempre, desde o primeiro dia, andou de mota em Cabo Verde, e que hoje tem tanta pena de que a falta de equilibro já o tenha afastado do vício.
“A mota é uma paixão. Tenho saudades da mota, às vezes olho para ela mas já não tenho equilíbrio”, conta-me este padre, que diz que, naturalmente, para Cabo Verde onde quase nunca chove, é o meio de transporte ideal, porque vai a todo o lado, é mais prático e é mais barato, além de mais fresco também.
Mas é também uma paixão. Paulo Campos recorda, visivelmente com saudade, a sua primeira mota, uma AJS, que os ingleses fabricavam especialmente paras as colónias, ou a Norton de 500 cm3, ou a última, a melhor, a Kawasaki, resultado porque as três ultimas eram dessa marca.
Pelas ilhas, Paulo Campos não prescindia da mota, nem que fosse, como foi, levada de avião. Só assim, na Boa Vista, poderia ter o prazer de andar pelas dunas a 80 quilómetros por hora, para “não ficar atascado”. Mas também para transportar pessoas e coisas, que a mota era, na altura, o único veiculo da ilha que funcionava.
Fico cheio de inveja. E quando o copo está vazio e eu, por ali, já a imaginar-me a saltar de duna em duna na Boa Vista, digo-lhe que tenho de me ir embora.
Não lhe disse, mas digo-te agora a ti, que lá vou voltar, e que lhe levo uma garrafa de whisky de presente.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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