Não há milagres
Publicado por Fernando Peixeiro 21 Novembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Provavelmente deste por isso, ainda que na Europa não se dê muito pelo que se passa aqui pelas ilhotas, mas queria hoje falar-te da parceria especial entre Cabo Verde e a União Europeia, aprovada esta semana. A coisa, parece-me a mim, é de importância fundamental. Mas temo que o povo deste país não tenha percebido.
Embora a léguas de distância, no tempo e na concepção, faz-me lembrar a adesão de Portugal à Comunidade Europeia, em 1986. Nessa altura grande parte do nosso povo, quando ouviu falar dos milhões que iam chegar, ficou de olhos arregalados. Olhos arregalados e mão estendida. “Quanto é que me vai calhar a mim?”, perguntavam uns, enquanto outros, mais espertos, se apressaram a fazer as contas.
Mas não foi assim, como deves lembrar-te. O dinheiro chegou sim, em grandes quantidades, mas para projectos de desenvolvimento. E quantos e quantos belos projectos não foram feitos, inúteis, idiotas, sem sentido, só para alguns ganharem dinheiro? Muito dinheiro.
A coisa aqui é diferente. Para começar Cabo Verde não entrou para a União Europeia. Nem nunca deverá entrar. O que se passa é ainda assim importante, a Europa reconheceu Cabo Verde como um parceiro especial e vai ajudar o país a desenvolver-se.
Mas esta semana já houve quem, espontaneamente, exclamasse “já estamos na Europa”, depois de ser conhecida a notícia.
Cabo Verde não está na Europa e tão pouco agora as fronteiras serão abertas, como outros julgam também. E ainda bem que não. Com a apetência para a emigração deste povo, se a União abrisse as fronteiras num abrir e fechar de olhos a população residente de Cabo Verde passava de 450.000 a metade. Digo eu.
Mas também não vão chover euros, ao contrário do que outros julgam. Acredito que hoje, tal como em Portugal há mais de 20 anos, muitos já estejam de máquina de calcular em riste, a fazer as contas sobre quanto lhes vai calhar.
É certo que virá muito mais dinheiro para Cabo Verde. Mas também é certo que não será de um dia para o outro nem será assim, de mão beijada. Hoje, amanhã, depois, os cabo-verdianos pobres continuarão a acordar pobres, as ilhas continuarão com más vias de comunicação e a luz e a água continuarão a falhar rotineiramente.
Mas a parceria é, indiscutivelmente, muito boa para Cabo Verde. O primeiro-ministro disse já que depois da independência e da abertura à democracia este é o momento mais importante para Cabo Verde. Eu acredito. Mas não há milagres. Só espero é que não seja uma desilusão para muitos, que ainda não entenderam que, às vezes, as coisas boas chegam devagar.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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