Não acredito em bruxas mas…
Publicado por Fernando Peixeiro 22 Abril 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Não sei se é política isto de que te estou a falar hoje. Sei que é um assunto que me faz alguma confusão, até pela persistência com que surge por aqui. E não penses que é a imprensa que o levanta. São os políticos mesmo, os ditos com responsabilidade. Falamos de narcotráfico e ligações ao poder.
Lembrei-me de te contar isto a propósito de um comício do actual, e candidato a segundo mandato, presidente da Câmara da Praia, Felisberto Vieira.
No sábado passado o homem, eleito pelo PAICV, partido que está no poder, e ao lado do presidente do partido e primeiro-ministro, José Maria Neves, acusou a oposição de receber dinheiro do narcotráfico. E disse-o com todas as letras, num comício, onde estavam também jornalistas. E ele sabia.
Foram estas as palavrinhas do homem, ora vê: “Eles falam de corrupção e falta de transparência. Deviam primeiro olhar-se ao espelho porque o PAICV não recebe lições deles na questão de ética e transparência na governação. Eles deviam estar envergonhados pelo que aconteceu em Cabo Verde na década passada. Nós não engordámos no dinheiro de privatização e nem recebemos comissão do narcotráfico através de advogados amigos”.
Ora o “eles” que Felisberto Vieira fala é o MpD, que esteve no poder durante 10 anos, até 2001 e que tinha de facto um programa de privatizações. Não deveria estar a falar da UCID, um pequeno partido, que tem apenas dois deputados e que nunca esteve no governo.
É claro que, como imaginas, o MpD já veio dizer que quer tudo muito bem explicadinho e hoje mesmo apresentou uma queixa contra o presidente da Câmara, pedindo também à Procuradoria que investigue e que tire tudo a limpo. Porque não basta acusar, é preciso provar.
Quem quer também provas é a Ordem dos Advogados, que ficou muito exaltada com aquela parte final da frase, a parte dos “advogados amigos”.
“A Ordem repudia veementemente este ataque, porque sempre que se ataca um advogado, a Ordem também é atingida. A OACV (Ordem dos Advogados de Cabo Verde) vai exigir ao candidato que faça prova das suas afirmações, aliás a Ordem vai pedir ao Ministério Público para que proceda a esta investigação, porque não é primeira vez que isso acontece e a Ordem não pode tolerar este ataque violento à classe dos advogados”, disse ainda ontem o bastonário da Ordem, Arnaldo Silva.
Mas atenta na frase “não é a primeira vez que isso acontece”. Pois é verdade. E isso é que me dá que pensar.
Em 2006, exactamente no dia das eleições legislativas, o presidente do PAICV, que acabara de ser eleito primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, acusou os partidos da oposição de estarem a “comprar votos” com dinheiro do “tráfico de droga e da criminalidade organizada”. Para quem o quis ouvir garantiu, na altura, que havia “indícios graves”, da “compra votos na véspera das eleições”, com “dinheiro da droga”.
Pergunto agora eu, caro amigo, o que é que se anda a passar aqui em Cabo Verde? Ou será só política?
Um desconfiado abraço
Fernando Peixeiro



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