Caro amigo

Não vou responder-te à letra mas quero só mandar umas bocas sobre o assunto e depois passar à frente, que sobre o tema conhecemos nós todos a cartilha. Eu acho que o racismo é só um lado, o mais visível, da xenofobia, mas também acho que não é coisa de portugueses e que toda a gente é um bocado xenófoba, alguns se calhar conseguem esconder mais, só isso.
Aqui, por exemplo, acho que os cabo-verdianos às vezes já se passam com os imigrantes do continente, quer venham do Senegal, da Guiné, da Mauritânia, da Serra Leoa, Libéria ou Costa do Marfim. Eu acho que o ser humano é assim, desconfiado em relação aos outros, aos que vêm de fora.
Lembro-me por exemplo de quando era puto, do “ódio visceral” (exagero, por isso é que está entre aspas) que a malta de S. Francisco, a minha aldeia, tinha aos das terras vizinhas, Cruz de João Mendes e Roncão. Se um grupo de S. Francisco ia a um baile ao Roncão acabava a levar porrada, na certa, e quando os da Cruz de João Mendes apareciam nas festas de S. Francisco era melhor que fossem logo muitos, à cautela.
Na escola primária, ainda me lembro, as duas miúdas que entraram de novo, que vinham de outras escolas e que não eram conhecidas de ninguém, amargaram umas duas semanas sem que nenhum de nós lhes dirigisse palavra.
No liceu, em Santiago do Cacém, era a mesma coisa. Os de Santiago, da vila, ignoravam e desprezavam, ostensivamente, os outros, que apareciam todos os dias por ali, descarregados nas camionetas do João Cândido Belo e que vinham lá das aldeolas.
Na faculdade já não andávamos propriamente aos murros uns aos outros, mas era sentida a embirração que a malta de comunicação social tinha pela de relações internacionais, ou que ambas tinham pelas “galinhas” de serviço social.
E depois nos locais de trabalho, nas empresas, especialmente se forem empresas do tipo familiar, onde todos se conhecem, quem entra de novo arrisca-se a levar com um período de nojo que pode às vezes ser de meses, onde ninguém lhe liga nenhuma e ainda por cima é hostilizado.
Aconteceu comigo. Dois dias depois de ter entrado para a Lusa pergunta uma colega, já mobília da casa, quem era aquele rapazinho ali sentado. Fê-lo nas minhas costas, dirigindo-se ao chefe.
- É um novo estagiário, respondeu o chefe.
- E vem de onde?
- Vem da faculdade, tirou um desses cursos de comunicação social.
- Ah! É desses. Eu acho bem que as pessoas tirem cursos, agora que nos venham para aqui tirar o lugar, isso é que não podemos deixar, não achas Serafim?

Portugal sempre passou a vida a rosnar para Espanha, enquanto a Espanha, de costas voltadas, sempre passou a vida a rosnar para França. Os europeus acham que são os mais importantes, os americanos acham que são os maiores, os asiáticos não sei o que acham mas só a China basta para de certeza acharem qualquer coisa, e os africanos também se acham muito importantes.
É assim caro amigo. Aqui na Praia a maior parte das lutas, com feridos e às vezes com mortes, é entre bairros. Aí não é novidade que um jogo de futebol acabe com tudo à batatada. Como também não é novidade que os portuenses odeiam os lisboetas. Norte contra sul, bairro contra bairro, cidade contra cidade, clube contra clube, cor contra cor, ricos contra pobres, jovens contra velhos, língua contra língua… e fico por aqui que a conversa já está a descambar para o erótico…

Um abraço, prometo não divagar tanto no próximo dia

Fernando Peixeiro


1 Response to “Não achas Serafim?”

  1. 1 ricardo

    servem estas linhas para dizer que eu sou xenófobo.

    Há pessoas de quem não gosto. E agora?! Paciência.

    Mas há uma coisa que me dá vómitos: gostar ou não de alguém por causa da concentração de melanina na pele, da origem e da sua condição social.

    Mas há indivíduos de quem não gosto. E alguns são pretos, outros brancos, outros nem uma coisa nem outra. Alias há alguns que não entram nesta equação porque, apesar de parecerem pessoas, de ser até possível e normal confundirem-se com pessoas quando no meio destas, não são gente, são animálias.

    E então?

    É claro que não ando com uma vara de cerejeira atrás dessas criaturas para lhes atascar o lombo de frestas ardentes.

    Mas sei uma coisa. Há uns filhos da puta que pode levar uma hora ou uma década, mas vou encontrá-los numa esquina qualquer.

    Lembro-me de ser rapazote de sebenta na mão a caminho da escola e haver um maluco, lá na terreola, que dizia algo assim, repetidamente: “Dou um queijo para não andar a batatada, mas entrego o rebanho inteiro de cabras para não largar uma boa sessão de pancadaria”.

    Eu também.