Mortinhos por chegarem a casa
Publicado por Fernando Peixeiro 1 Fevereiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Mário Matos, até ao fim-de-semana passado secretário-geral do PAICV, partido que sustenta o governo cabo-verdiano, vive há quatro meses em Lisboa. Um exílio forçado. Como ele vivem mais umas oito dezenas de cabo-verdianos aí. Forçados. Porque se voltarem para Cabo Verde morrem. Tão simples como isto.
Mas não é só em Portugal. Europa fora, Estados Unidos também, há cabo-verdianos que estão condenados a não voltar tão cedo a Cabo Verde, onde correm um sério risco de vida. Não são criminosos, não são traficantes de droga envolvidos num qualquer esquema mafioso, não são inimigos da Nação, tão só sofrem de insuficiência renal, tendo de fazer hemodiálise três vezes por semana.
E Cabo Verde, que passou em Janeiro a país de rendimento médio, não tem um único serviço de hemodiálise.
No ano passado, quando da apresentação do programa de cooperação de Portugal com Cabo Verde, foi dito, e escrito, que a criação de um serviço de hemodiálise nas ilhas era prioritário.
Quase um ano depois, há poucos dias, perguntei ao ministro da Saúde daqui quando é que Cabo Verde tinha um serviço de hemodiálise, a tal prioridade.
Continua a ser prioritário, disse-me ele, e dentro de… dois anos deverá estar criado um serviço na Cidade da Praia.
Perguntei também a um responsável da cooperação portuguesa, há meia dúzia de dias, quando era tratada essa questão prioritária.
Em breve. Essa é uma questão prioritária para o ministro português da Saúde e muito em breve vai ser assinado um protocolo entre os dois países.
O ministro da Saúde foi-se embora e deve ter levado consigo todas as prioridades. Ou será que deixou essa no gabinete para Ana Jorge agarrar?
Terá ela a mesma noção de prioridade que o governo de Cabo Verde? Que nem com o secretário-geral do maior partido se alterou?
E os que estão aí e que, além da má sorte de serem insuficientes renais ainda tiveram o azar de ter nascido pobres? Que vidas terão? Que prioridades terão?
Eu acho que este país, sempre à frente em tudo quanto é tabela de desenvolvimento, já deveria ter cuidado dos seus doentes. Um país que não cuida das suas populações é necessariamente um país, ele próprio, enfim… doente?
Eu acho que este país quando estabelece uma prioridade não devia calendariza-la a dois anos. E quando dizem dois será mesmo dois?
As prioridades não são para 2010, são para ontem.
E um centro de hemodiálise custará mais do que uma estrada? Um edifício de escritórios? Um resort? Um campo de golfe?
Ainda que custasse. Pior, mais caro, não será 80 cidadãos de um país estarem, assim, proibidos de regressar a casa?
Eu acho.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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