Mortinhas, loucas da vida, cheias de pica
Publicado por Fernando Peixeiro 15 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Desde que estou em Cabo Verde e sempre que subo a serra da Malagueta costumo parar lá no cimo. Foi assim na primeira vez, com o Ricardo, a Isabel e o Pascoal, quando me andavam a mostrar a ilha de Santiago, e depois das outras, quando era eu que andava a fazer de cicerone. Ontem, para não variar, parei lá. A ilha está irreconhecível.
Só agora, durante pouco tempo, o nome deste país faz sentido. É certo que a ideia nunca foi chamar a estas ilhas de verdes. Os navegadores chamaram-lhe as ilhas do Cabo Verde, sendo que o Cabo Verde era no continente africano, onde está hoje o Senegal. Se tivessem na altura necessidade de ser mais específicos e as cores lhes agradassem o mais correcto teria sido chamar ao arquipélago as Ilhas Castanhas do Cabo Verde.
É essa a cor da terra, das ilhas queimadas pelo sol, quase sempre inclemente, quase todos os dias presente, mesmo quando as nuvens o tapam.
Mas um dia chove. Basta um dia. E aquela terra toda queimada, empoeirada, para a qual tu olhas e achas impossível que contenha alguma vida, de repente muda de cor. Nascem ervas por todo o lado, as acácias, também elas aparentemente mortas, ganham nova folhagem e o milho, que já foi semeado há algum tempo (contei-te isso) começa a nascer.
É espantosa a rapidez com que este país muda de cor. É como se as sementes todas estivessem ali, mortinhas, loucas da vida, cheias de pica para nascer, só à espera da autorização de uma bela chuvada.
Da serra da Malagueta avistas toda a planície, para os lados da Assomada, e os montes íngremes e agrestes do outro lado. Até agora a paisagem era sempre igual, árida e seca, mas agora vês verde para qualquer lado que te vires. E é tanta a vontade, tanto o desejo daquelas sementes loucas que a própria estrada, de paralelepípedos, se enche de verde entre as pedras.
E digo-te, caro amigo, Santiago não está só uma ilha diferente. Está uma ilha linda. E mais ainda lá encima, na serra, e quando começas a descer para Chão Bom, onde o milho já te chega ao joelho. Por toda a parte dezenas de pessoas, sachola na mão, a mondar o milho, a apanhar a erva, imagino eu que cheias de felicidade.
Ontem, no cimo da serra, fazia nevoeiro e, imagina tu, até estava frio.
Eu, como bem imaginaste, até vi o jogo e a “festa” que se lhe seguiu. Também não gostei daquela cena macaca com o Luís Felipe Scolari, até porque sempre simpatizei com o homem. Lembro-me de ter comentado, na altura, que aquilo era uma vergonha para Portugal e para o futebol nacional e que a questão ia ser assunto obrigatório nuns bons próximos tempos.
Mas devo confessar-te uma coisa. O seleccionador nacional pode ter-se passado e eu fiquei triste com isso mas ontem estava muito mais preocupado com a loucura das tais sementinhas.
É que a chuva aqui é incerta e coisa rara. No meio do nevoeiro e do frio dei por mim a temer que depois daquela chuvada que pôs Cabo Verde verde não venha outra tão cedo. E que os agricultores percam o milho e que as plantas morram precocemente, queimadas pelo sol, antes de terem tempo de cumprir a sua função.
Porque, caro amigo, não duvides. Aquele verde todo tem uma função muito mais importante do que a de nos deleitar a vista.
Já viste? Se as plantas morrerem assim pequeninas para o ano se calhar não há sementes loucas da vida. E eu confesso que já lhes estava a ganhar carinho.
Um verde abraço
Fernando Peixeiro



Grande Peixe,
Cheguei agora ao vosso blogue, que estou a adorar. Este texto é uma pequena maravilha que, ocupando dois minutos das nossas vidas, nos leva, sem maçadas de aviões, bagagens e hoteis, para um sítio onde provavelmente nunca iremos. Bom, deixemo-nos de conversa mole, que daqui a nada estou a chamar-te meu braillezinho querido.
Peixe, agora que já nunca mais me vais poder ralhar por eu falar e rir alto quando tu queres trabalhar, confesso-te uma coisa: sempre me comoveu a tua escrita.
bj
Mat