Caro amigo

A água é das coisas mais preciosas que temos aqui, mais do que a luz, nunca se esqueça de uma torneira aberta. António deixa-me o aviso depois de já lhe ter desmontado a instalação telefónica e atacado a chave de fendas o contador de impulsos, que esventrei encima da máquina de café expresso. António só pode ter um grande coração. Ouve-se.
Foi ontem de manhã, no Mindelo. Procurei um sítio para ficar que tivesse telefone, para que pudesse ligar-me ao mundo, até que encontrei a pensão de António. Modesta mas limpa e simpática, que nestas coisas é o que conta, e com um telefone no café ao qual poderia ligar-me à Internet.
Experimentámos e funcionou, só que através do telefone do homem, sem passar pelo contador de impulsos, o que para ele não dava grande jeito. Pouco conhecedor do assunto António ficou descansado. “Se não está a marcar é porque é só o senhor que está a falar, não se preocupe, quando eles responderem de lá é que começa a marcar”. E eu com a página da Lusa aberta, a ver as notícias.
Que não, disse eu, que o senhor assim está a pagar os impulsos. O que temos de fazer é passar esta ligação pelo contador, para assim saber quanto tenho de lhe pagar e para eu também usar a Internet descansado.
Esta conversa passa-se dentro do balcão do café. Eu com o computador encima de um banquinho, ao lado da máquina do café, e dois clientes, pacientemente, sentados do outro lado à espera de ver como ia aquilo acabar.
António foi buscar uma faca e uma chave e tratámos de descarnar fios, desaparafusar o contador da parede, abri-lo, tirar fios, ligar outros… enfim… uma trabalheira que o deixou cansado. Acho. Nunca tinha conhecido ninguém cujo bater do coração se ouvisse a meio metro de distância. Acredito que seja naturalmente assim, tanto mais que aquele não era um trabalho pesado, quando muito era coisa para o deixar nervoso, de me ver de faca em riste. “Isto é como se estivesse a fazer uma operação”, disse-lhe eu a brincar, observando o seu ar apreensivo enquanto se espalhavam pedaços do contador de impulsos encima das chávenas do café.
Trabalho completo e …azar… a Internet não funcionou. Ataquei outra vez os fios enquanto o António corria para o telefone, a ver se o tinha irremediavelmente deixado mudo. Pedi-lhe que ligasse para um número qualquer para confirmar se estava tudo bem e ele: “vou ligar para casa”. Para casa, ali ao lado, tentou, tentou, e dava sempre impedido. António foi lá, viu que estava tudo bem, voltou, e continuou a dar impedido. António suava. Foi quando eu percebi que estava mesmo nervoso. Não estava a ligar para casa, estava a ligar para ele próprio.
“A que horas é que o senhor quer usar a Internet?”
“Pelo menos à tarde”, disse-lhe eu. “Então eu deixo-o ir ao quarto da minha filha, que ela tem Internet, e o senhor faz lá o seu trabalho”, responde ele.
Achei que era demais e fiz outra proposta: “Fazemos assim, contamos os minutos que eu uso a Internet, dentro do café, e eu pago-lhe os impulsos”. António não percebeu mas aceitou.
Agora que te escrevo estou dentro do café dele, ao mesmo tempo que serve cervejas e sumos ao pessoal que está do lado de lá, que me olha como se fosse uma coisa rara, assim sentado com um computador no colo e ar atento.
António ainda não percebeu que com isto tudo ganhou um amigo e que eu, sempre que vier ao Mindelo, vou ficar na sua pobre pensão.
Eu também ainda não percebi porque é que lhe oiço o coração. Se fosse possível diria que lhe injectaram um altifalante. Como não é vou ter de lhe perguntar, depois te direi. Se conhecer a filha dele também te direi.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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