Caro amigo

Cheguei a casa dele com um saco de ovos. Carreguei-os com cuidado, de táxi, como o Vasco me tinha recomendado. Germano riu-se. E riu-se outra vez quando o Omar lhe ofereceu um charuto cubano. Não mais o largou mas também não o acendeu. Cheguei a casa dele com hora marcada, mas ficava todo o dia na conversa. Germano Almeida.
Germano Almeida é, para mim, o maior escritor cabo-verdiano. É alto sim, mas também o único que tem uma produção de um livro por ano e aquele que mais vendeu na recente feira do livro aí em Lisboa.
Eu já o conhecia, aqui da Praia, quando uma noite nos embrenhamos numa discussão qualquer, com ele muito radical, confessando no fim que estava a exagerar mas que também estava a gostar da discussão.
Voltei a vê-lo em sua casa, no Mindelo, o seu castelo, a sua sala repleta de estantes com livros e de onde saíram uma dúzia de obras, algumas adaptadas ao teatro e uma mesmo ao cinema.
Imagino que escreveu ali, naquela secretária, O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, o seu maior sucesso, mas também Os dois irmãos, As memórias de um espírito, O mar na lajinha ou Eva, o seu último romance. O Mindelo a seus pés, a baía lá abaixo e para o lado direito a Lajinha, a praia onde vai tomar o seu banho diário. Aquela é a sua cidade e se sai dela é pelo prazer da certeza que em pouco tempo regressa.
Germano Almeida é assim. Apaixonado pelo seu país mas também muito crítico, quando acha que o deve ser. E não tem pudor em citar o poeta cabo-verdiano Oliveira Barros para lamentar que Cabo Verde ainda seja tão dependente de Portugal em termos culturais.
“Nós somos vistos pelos olhos de Lisboa”, cita de cor, enquanto acaricia o charuto que tem na mão e vai acrescentando: “até agora não perdemos a dependência em relação ao exterior, e esse exterior é Portugal. É como se houvesse ainda uma certa ausência de capacidade critica. Se lá fora se diz que Germano Almeida é bom escritor aceita-se em Cabo Verde que ele é bom. Mas se lá fora se diz que é mau…”.
Germano, escritor e advogado, mais contador de histórias do que escritor, como ele mesmo diz, não termina a frase. Nem precisa.
Mas também não se entenda no que diz uma critica a Portugal. É mais um lamento em relação a Cabo Verde, em relação ao Mindelo, S. Vicente, a ilha onde vive ainda que tenha nascido noutra, na Boa Vista, e tenha estudado e feito tropa em Lisboa, onde de resto andava na Faculdade quando foi o 25 de Abril.
Conta-me essas e outras histórias durante o tempo, claramente pouco, que falamos, entre as estantes, ele atrás do seu computador, sem o qual, diz-me, não consegue escrever uma linha. Como o entendo.
E depois falamos de livros, dos que escreveu, dos que leu, dos que lemos. Dos que mais gostámos, dos nossos escritores preferidos, dos que nos emocionaram, fizeram rir, chorar, pensar, sonhar.
Eu, confesso, ficava por ali o resto do dia. Assim fosse possível. Quando lhe apertei a mão prometi-lhe um livro que teria de comprar em Lisboa. Se calhar, lembra-me quando aí estiver de o comprar. E se ainda não leste lembro-te eu para comprares algum livro dele. O testamento, por exemplo. E então também a ti te apetecerá passar umas horas assim, Mindelo aos pés, a baía ao fundo e para o lado direito a Lajinha.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Mindelo aos pés, a baía ao fundo e para o lado direito a Lajinha”

  1. 1 Kida Irina

    Caro Fernando,
    parabéns pelo texto. descreve este figura tão nossa que por entre as linhas escreve o que os desentendidos gostam de dizer que iventou. coisas de gente, histórias são assim mesmo, para mim, uma fantasia baseada numa realidade da vida.
    ele é um senhor por Excia,