Mil pés, insaciável e ninfomaníaco
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 16 Janeiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Sabes quando as coisas nos correm tão mal tão mal que a gente pensa que bateu no fundo, que nada pior pode acontecer, e depois ainda vem mais uma arrelia qualquer? Do tipo deixares-te dormir, entornares o café com leite na roupa que levarias para o trabalho, dares um salto porque te queimaste e derrubares tudo o que estava encima da mesa, ires a correr trocar de calças, tropeçares, bateres com a cabeça na parede e fazer um galo, e depois quando finalmente vais sair o carro não trabalha? E sabes o que podem fazer umas larvas numas flores? Sabes? Sabes?
Em Santo Antão, a segunda maior ilha de Cabo Verde, começou assim o que te vou contar. Com umas pequeninas larvinhas dissimuladas numas flores.
Cabo Verde, como sabes, é um país inóspito. Quase nunca chove e a terra é seca a maior parte do ano, sem préstimo para a agricultura a não ser nalguns vales férteis, tipo oásis.
No meio de tanta secura a ilha de Santo Antão marca a diferença, porque é onde há mais água, mais humidade, e onde mais chove. Santiago tem mais terra arável, o Fogo é mais húmido mas tem menos terra arável. As três ilhas, na verdade, são as principais ilhas agrícolas do país, mas Santo Antão se perde em terra arável ganha em água e é óptima para semear hortaliças. Couves, alfaces, tomates, batatas… todas essas coisas que fazem o nosso dia-a-dia gastronómico e que se querem fresquinhas, porque estar a importar alface dos continentes (Europa, África ou América do Sul) é uma dor de cabeça que deixa qualquer um… digamos… verde.
Santo Antão seria pois a horta de Cabo Verde não concordas? E digo seria porque não é. Há uns anos, para aí na década de 70, alguém de Santo Antão trouxe de um país do continente africano umas plantas de jardim, que supostamente colocou com desvelo no quintal lá de casa.
Acontece que no meio dessas plantas de jardim vinham uns bichinhos, que fazem lembrar a centopeia, chamados mil-pés. Uns quantos, poucos por certo, que ninguém deu por eles. Mas os bichinhos gostaram da nova casa e toca de constituir família sem dó nem piedade. E foi tal a sanha que em poucos anos se tinham espalhado por toda a ilha, comendo tudo o que lhe aparecia pela frente, leia-se hortícolas.
Primeiro foi na zona da Ribeira Grande e depois foram-se espalhando de tal maneira que há uns 20 anos as autoridades não tiveram outro remédio se não colocar a ilha de Santo Antão e a vizinha São Vicente de quarentena. Ou seja, os agricultores podem vender os seus produtos para S. Vicente mas para mais lado nenhum.
Agora imagina. O resto das ilhas à mingua de produtos fresquinhos e terem de os importar e Santo Antão com tão bom clima para eles e… nada. Mas depois, devo também dizer-te, os pobres dos agricultores também deixaram de semear batatas, couves e outras que tais. Ou tu julgas que os mil-pés deixavam crescer uma que fosse? Naaa, comiam tudo.
Foi de tal ordem a desgraça que o povo deixou pura e simplesmente de semear essas coisas e dedicou-se à cana do açúcar, que essa os mil-pés não atacam. Agora eu entendo porque é que quando se fala em grogue (aguardente de cana) de boa qualidade se fala em Santo Antão. Qualidade e quantidade, porque os mil-pés estão lá para não deixar que se plantem outras coisas que não a cana sacarina.
Estão ainda caro amigo. Apesar de todos os esforços as ilhas continuam de quarentena e só agora se admite que, em breve, se comece a vender alguns produtos para o Sal e para a Boavista, mas a título experimental e com muito cuidado.
Ou seja, um país seco, com necessidade de produtos frescos, e na única ilha onde se podiam cultivar vem uma praga enrolada num molho de flores e fecha a ilha duas décadas. Diz-me lá: isto não é azar a mais?
Um abraço
Fernando Peixeiro

