Mil imagens e uma proposta

Caro amigo

Em início de férias, imaginando as paisagens do sul de Portugal de que me falas, não quero partir sem te deixar também algumas imagens, faladas, de Cabo Verde. Olhares, gestos, sorrisos, cumprimentos… são também imagens. Que guardo deste meio ano das ilhas e que me fazem, agora, acreditar, que o próximo será também bonito.
Já te falei do mal que se conduz aqui, do lixo nas ruas, das praias sujas. Casos tristes, é certo, mas nem tudo é mau.
Há dias, quando conduzia disciplinadamente na minha mão e me preparava para virar à direita dei de caras com um camião mesmo na minha direcção. O condutor pura e simplesmente estava, numa transgressão do pior que há, a atalhar caminho. Parámos os dois frente a frente, eu com um ar do tipo “isto não me está a acontecer”.
E que fez ele? Tirou as mãos do volante, levantou-as acima da cabeça e, imagina, desatou à gargalhada. Em resumo, fez uma tal festa, com tal simpatia, que só pude rir-me também e nem tive coragem, nem vontade, de esboçar um gesto que fosse de contrariedade.
Depois as ruas. É certo que quase sempre são sujas, mas acredita que as pessoas são tão simpáticas que acabas por te esquecer. Se vais a pé é muito possível que metam conversa contigo, só por falar (às vezes para pedinchar qualquer coisa, é certo), mas ainda que isso não aconteça chegarás sempre à noite carregado de sorrisos. E experimenta pedir uma informação. Dependendo de quem apanhas é bem possível que te levem mesmo ao local que desejas.
Mas, se viajares para o interior, “pior” ainda. Em Timor-leste lembro-me de um dia parar junto de uma casa do interior, já nem sei porquê, e de uma amiga que viajava comigo pedir uma rosa ao homem que por ali andava. Ele apareceu de imediato com uma enxada e preparava-se para arrancar a roseira para nos dar. Aqui também é assim. Raramente viajo para ao interior que não regresse à Praia com qualquer coisa que me oferecem pelo caminho.
Até mesmo na comunidade fechada dos Rabelados, de quem já te falei, na segunda vez que lá estive fui recebido com sorrisos e abraços e voltei com duas pinturas, oferecidas pelo autor.
É por isso que te digo. Das mil imagens que guardo de Cabo Verde, nestes seis meses, é a simpatia dos olhares, dos gestos, dos sorrisos e dos cumprimentos que mais recordo. Mas é também as águas mornas do Atlântico, as noites numa esplanada em companhia de amigos, a estrada para Porto Mosquito, uma família fantástica de Praia Baixo, os domingos serenos a beber café no Trópico com a Isabel (da RTP), subir a serra da Malagueta e parar todas as vezes lá no alto, no mesmo sítio, para admirar a vista, o anoitecer e os vários tons de cinzento da ilha, almoçar no Tarrafal a ver o mar, sentar-me ao fresco na Cidade Velha e depois ficar horas numa esplanada também a ver o mar, sentir o frio de Rui Vaz e, sobretudo, sentir o calor desta ilha.
Agora que a deixo por um mês, e porque é Verão e presumo que também tu irás de férias, venho por isso propor-te um interregno na nossa correspondência. Não que fiquemos um mês sem nos escrevermos, porque tanto tempo embota os dedos. Mas reduzir para metade estes escritos parece-me justo, ficando desde já a promessa que em Setembro cá estaremos. Em Setembro terei, por certo, mais mil imagens para te descrever.

Um abraço de boas férias
Fernando Peixeiro


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