Medo

Caro amigo

Às vezes as pequenas coisas, os pequenos dias, tornam-se grandes. Às vezes ficam pequenos de mais, de tanto querermos que durassem e durassem e durassem. Às vezes uma semana passa tão depressa. Às vezes dura uma eternidade. Faz amanhã um ano que aqui cheguei. Passou depressa. Os momentos, as semanas, os anos, às vezes são assim.
Há um ano, por esta hora, estava, como diria o outro do anúncio, “que não podia”. Ansioso, nervoso, stressado e com medo. Porque ir começar uma vida completamente nova, noutro país, numa situação diferente, com responsabilidades maiores e longe de casa. O medo era o desconhecido, porque só tememos aquilo que desconhecemos.
Creio que foi Giordano Bruno, teólogo e filosofo italiano, condenado por heresia pela Igreja Católica, por achar que o Universo era infinito e com milhões de sistemas como o Solar, que escreveu uma coisa do género: só quando um homem ultrapassa as suas próprias fronteiras e do mundo que o rodeia é verdadeiramente homem, é herói.
A frase correcta já não a sei. Mas lembrei-me dela no ano passado, talvez para me animar, para me dar coragem, porque por mais que quisesse inventar camuflagens o que eu tinha era medo.
Se Copérnico defendia que a Terra não era o centro do Universo, Giordano Bruno garantia que nem a Terra nem sequer o Sistema Solar eram o centro de fosse o que fosse. Éramos só mais uma estrela, com uns planetas à volta, como tantas outras estrelas, os seus planetas e as suas civilizações.
Por certo melhores do que as nossas. Porque a 17 de Fevereiro de 1600 esse homem foi conduzido à fogueira, com uma estaca atravessada na língua ainda assim não dissesse mais um disparate como o de que a Terra não passava de um planeta de segunda categoria perdido no cosmos. Foi o medo da Igreja que o matou, na verdade.
Deu-se mal. Essa é que é essa. Não queria dar-me mal eu, não queria ser herói, e há um ano por esta altura debatia-me só com a angústia de não saber o que ia encontrar e o frenesim da ideia de ir conhecer outro país (já que não posso conhecer outros planetas), outros modos de vida e ter novas experiências. É uma sensação estranha. Não te passa pela cabeça recuar mas tens um medo terrível de avançar.
E depois viras a esquina. Vês o que está do outro lado, e passa-te o medo. Não te tornaste mais homem, não és um herói e os medos de ontem são hoje absurdos. Ficas contente, estás contente, mas no fundo sabes que amanhã, quando houver outro desconhecido, o tal medo é gajo para voltar.

Talvez nesse dia volte a lembrar-me do homem que morreu há mais de 400 anos para me convencer que tudo correrá bem e que sairei da coisa mais homem e mais fortalecido. Ou então relativizo. Talvez me baste aquele ditado bem da nossa terra, e sempre actual: quem tem cu tem medo.

Um abraço

Fernando Peixeiro


2 Responses to “Medo”

  1. 1 ricardo

    Alguém reparou que o Peixeiro não se referiu uma única vez ao sítio que o aguardava, a ele ao ao seu medo?? A ele e aos seus múltiplos e adensados dilêmas”.
    Não, pois não. Mas é importante: Cabo Verde!!!
    Sei lá, só acho um bocadinho exagerada a comparação com o Bruno. Ó Peixeiro, não fiques chetado nem vás ai ao lado falar com o banobero, esse de olhos grandes, vermelhos e com poções capazes de fazer um castigo atravessar o mar e atingir-me enquanto desfaço uma cuca num qualquer fim de tarde no Jango Veleiro a ver o sol esvair-se.
    Coisas de mentes latas, espíritos largos… enfim. Coisas do Peixeiro.
    Mano, estás prontinho para a Somália!
    Mantenhas.

  2. 2 Guinevere

    Amigo enorme,
    No momento em que assumiste para ti esse tal do medo podes ter a certeza que cresceste, engrandeceste e, até certo ponto, te tornáste um herói.
    Isso de assumir os medos e virar a esquina na mesma é de Homem.
    E sabes que mais, quando voltares daqui a dois anos (certo?) vais voltar a sentir esse medo. Porque sabes que o que deixaste para trás não cristalizou à espera do teu regresso.
    E mais uma vez vais assumir esse medo e vais virar a esquina. Mais uma vez vais crescer, engrandecer e ser herói.
    E eu só quero estar no virar dessa esquina para te abraçar.

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