Mau ano agrícola
Publicado por Fernando Peixeiro 29 Setembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
O que eu temia aconteceu. Não choveu nalgumas ilhas e as culturas vão perder-se todas. Dias e dias de trabalho deitados não à terra mas por terra. Sementes que brotaram e que depois morreram à sede. Campos inteiros a ficarem outra vez castanhos, tão castanhos que já nenhuma água lhes vale. Espanta-me a indiferença das pessoas. É que já estão habituadas.
A confirmação oficial veio ontem mas bastava olhar para aqueles campos, onde o milho nasceu e teimosamente continuava a tentar crescer num mar de terra seca, para vaticinar um futuro negro.
Mas o futuro, este ano, já está escrito. Em letras muito tristes para os agricultores do Fogo, de Santo Antão, de S. Nicolau e de Santiago. O governo vai tentar minimizar a coisa, disponibilizando mais de cinco milhões de euros, para outras oportunidades de emprego, para comprar forragens, para comprar sementes.
Mas, caro amigo, tenho para mim que não há nada que pague a falta de chuva. Eu, que vi logo em Junho esta gente encostas acima, a semear milho e feijão, no meio do pó. Estavam a semear para colher, por estas alturas, milho e feijão e não subsídios ou perspectivas de outros empregos. Nalguns casos fizeram até segunda sementeira, porque era o resultado dessa sementeira que queriam.
Mas pronto. S. Pedro assim não quis. E eu fico espantando com a passividade com que o povo aceita os desígnios do santo. Quando, na última semana, depois de um mês sem chuva, perguntava o que é que ia acontecer a resposta foi muito simples: “nada”.
Aqui não há manifestações na rua a pedir dinheiro ao governo, não vêm os agricultores para os jornais ou para a televisão chorar amargamente a miséria em que o tal santo os deixou.
E a explicação para tanta passividade é simples. “Fernando, já estamos habituados! Há 10 ou 15 anos que é assim, lá de vez em quando há um ano em que chove mas a maior das vezes é assim”.
E pronto. Não há nada mais a dizer. Para o ano lá estarão outra vez a subir as encostas, carregados de sementes. Gostam de sofrer? Perguntarás tu. Não creio.
A não ser que todos sejam como aquela mulher de quem há dias me falavam aqui na Praia.
-“Acho que o meu marido já não gosta de mim”, desabafou ela com uma amiga.
- “Mas porquê? Achas que tem outra? Chega tarde a casa?”. Perguntou a outra.
-“É que há mais de um mês que não me bate, nem uma bofetada”!
Um abraço
Fernando Peixeiro



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