Martelo, azul, branco, gata, tigre, baleia
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 12 Junho 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Lembras-te de te ter falado há tempos das tartarugas marinhas, que o pessoal aqui faz questão de matar mal põem uma barbatana em terra? E das cagarras, em extinção, que também matam assim aos milhares, só porque querem? Hoje venho falar-te dos tubarões, exterminados desalmadamente porque, azar, têm barbatanas, e os asiáticos, azar também, dinheiro para as pagar.
E desta vez não venho para aqui dizer-te mal de uns cabo-verdianos pouco amigos da natureza, insensíveis ao ambiente e surdos a um mais que rápido e seguro fim de umas quantas espécies que teimam em fazer vida aqui e que já cá estavam muito tempo antes deles chegarem.
Não senhor. Os maus da fita, os maus da minha carta de hoje são os insuspeitos espanhóis, que ao que parece andam por aqui a matar tubarões desenfreadamente, a encher barcos com eles, e depois, quando mais campo não há, a matar os pobres animais só para lhes arrancar as barbatanas, para fazer sopa, imagina tu.
Não sou eu que o digo, como deves imaginar, mas sim o responsável de uma associação ambientalista, que anda aqui no Mindelo a alertar para a carnificina. Só no ano passado, disse-me ele há dias, e ele chama-se José Melo, foram descarregadas no porto do Mindelo, na ilha cabo-verdiana de S. Vicente, 2.400 toneladas de carne de tubarão.
“Se tivermos em conta que já se perdeu 40 por cento do peso inicial, porque foram tiradas as vísceras e a cabeça, fica-se com uma ideia da quantidade de tubarões mortos”, disse-me ele. E eu até fico arrepiado.
A carne é vendida depois nas ilhas espanholas das Canárias a cinco euros o quilo, sendo as barbatanas enviadas para o Japão e compradas a 28 euros por cada quilo.
Mas agora vem a parte pior. Disse-me o José Melo que “quando os barcos têm o porão cheio e se os pescadores ainda têm isco e alimentação continuam no mar a apanhar tubarões, só para lhes arrancar as barbatanas, deitando o resto fora. As barbatanas são fáceis de armazenar porque basta porem-se a secar ao sol, e depois estão prontas para enviar para o Japão”.
Resultado: Cabo Verde, que era até há 15 anos a zona do Atlântico com maior incidência de tubarões hoje é terra, ou melhor, mar, que tal bicho que não se vê. Havia mais de 50 das 350 espécies por estas águas e agora… agora… viram um em Julho de 2006 para os lados de Santa Luzia, e caíram mais uns quantos numa rede, ali para os lados de Porto Novo, Santo Antão, também há uns dois anos.
Apesar de o Steven Spielberg ter criado uma má imagem dos tubarões, a verdade, caro amigo, é que eles são essenciais para o equilíbrio ecológico marinho, consumindo peixes doentes e fracos. Não merecem ser mortos assim, e muito menos ser mortos só para lhe cortarem as barbatanas, porque uns senhores lá na China gostam de fazer sopas com elas.
Só a China importa por ano quatro mil toneladas de barbatana de tubarão. Alguns países, como o Brasil ou os Estados Unidos, já impuseram proibições. Mas é pouco. Por ano matam-se 100 milhões de tubarões só por causa das barbatanas.
Eu vou fazer a minha parte. Sopa de barbatana de tubarão nunca.
Um abraço
Fernando Peixeiro


Os tubarões estão a acabar nas águas de Cabo Verde, diz José Melo e ecoas tu, caro Fernando! Pois então deve ser verdade!!!
Entre os principais responsáveis estão os espanhóis? Não estranho e acredito mesmo que seja tristemente bem verdade!
Espanhóis, aliás, que prometem oferecer a Cabo Verde um “Centro Atlântico para o Estudo da Biodiversidade”, ou qualquer coisa parecida, que ficará, diz-se, instalado na Ilha da Boavista!
Um Centro para Investigação e Conservação, é o que tem sido divulgado… Mas será que é para ajudar a perceber os impactos negativos na biodiversidade resultantes das tartarugas e ovos de tartaruga que os mesmos espanhóis levam, todos os anos, aos milhares de Cabo Verde para as Canárias e para o Sul de Espanha, numa tentativa desesperada e cientificamente muito discutível de repovoar essas praias? E para ajudar a perceber os impactos negativos na biodiversidade destas matanças primárias de tubarões?
Que curiosa é a “cooperação”, não é???
Eu, cá para mim, esse Centro é só para distrair as atenções e para pagar a taxa pública associada à “distracção” das entidades oficiais cabo-verdianas…
Cabo Verde necessita, em definitivo, de um Observatório para a Cooperação Internacional, independente e idóneo. E que surpresas o mesmo traria…