Caro amigo

Porque a educação de cada um é o que é, e porque do que a casa gasta (Portugal) estamos nós fartos de saber, prefiro falar-te hoje de Malaquias Vaz. Tem 66 anos, casado, muitos filhos, alguns naturalmente emigrados, está prestes a reformar-se, vive na Cidade da Praia há 26 anos mas nasceu na ilha de São Nicolau. Uma vida normal, como milhares de cabo-verdianos. É verdade. Mas falo-te de Malaquias Vaz porque Malaquias Vaz deve ser um caso único. Não tem uma mas duas profissões em vias de extinção.
Malaquias Vaz começou por ser, há mais de 40 anos, guarda prisional, e ainda por cima no famigerado campo do Tarrafal. Mas não é isso que faz daquela figura pacífica, muito magra e de corpo a pedir descanso, uma má pessoa. Era um emprego, foi o que arranjou na altura, disse-me ele há dias, falando-me até das figuras públicas que por lá conheceu, especialmente de Angola. Boa gente. Ficou amigo de alguns.
Era um jovem na casa dos 20 nessa altura. Mas desde criança carregava consigo um fascínio: relógios. Não sabe de onde lhe veio, não sabe de quem herdou, nem sabe sequer a altura precisa em que descobriu aquela paixão. Sabe que ficou. Até hoje sente-se feliz em abrir uma dessas engrenagens, de parede ou de pulso, de cuco ou despertador. Desde que sejam mecânicos trata-os a todos por tu.
Eu brinco com os relógios. Repete-me, para que não fiquem dúvidas. E brinca nas horas vagas, porque na verdade nunca foi relojoeiro de profissão, antes optando pelo funcionalismo público. No Tarrafal tinha tempo livre. As paredes, as grades, os fossos, o arame farpado faziam-lhe parte do serviço e pôde assim, com toda a tranquilidade mas também empenho, tirar por correspondência um curso de relojoeiro. As lições chegavam-lhe por correio, de Lisboa, e tempos depois, da mesma maneira, chegavam os testes. Disse-me que foi o melhor do curso e teve um convite para ir trabalhar para Lisboa. Malaquias Vaz recusou. Por essa altura tinha já outro emprego também para ele aliciante, faroleiro.
Foi no Farol da Cidade da Praia que o fui encontrar. À entrada uma mesa, com vários relógios que vai arranjando nas muitas horas vagas. O Farol, esse, dá-lhe pouco trabalho porque é já quase tudo automatizado. Pensa mesmo que um dia destes, quando se reformar, entrarão as últimas maquinetas que substituirão de vez a mão do homem.
O homem, Malaquias Vaz, anseia por esse dia. Para ter tempo de se dedicar à sua verdadeira paixão, embora sinta que os relógios lhe estão a fugir todos os dias do pulso. “Faço seis quilómetros por dia, a pé, e as mãos ainda não me tremem”, disse-me ele. Mas também me disse que as peças para os relógios já quase não se encontram ou custam tanto como comprar uma máquina nova. E depois quem quer hoje um relógio mecânico? Os de pilhas são muito mais baratos e quando se estragam vão parar ao lixo, logo substituídos por um ainda mais bonito, mais durável e com mais funções.
Com esses Malaquias não quer nada. Os seus são os de boa cepa, os antigos, com uma rodinha de lado onde é preciso dar corda todos os dias.
Malaquias sabe. Sabe que quando deixar o farol ele continuará a ligar-se todos os dias a uma hora programada e a desligar-se quando o primeiro raio de sol bater na eclipse. E quando olha para os pulsos das pessoas e vê os relógios que usam sabe também que depois dele já ninguém vai aprender a consertar umas máquinas que já quase ninguém quer.
Mas valeu. Foi feliz todos estes anos. O mar deu-lhe a calma e a concentração para se dedicar às rodas dentadas minúsculas. E as rodas dentadas minúsculas deram-lhe a realização que nunca encontrou nas torres de vigia do Tarrafal ou nas escadas em caracol do Farol da Praia.
O último faroleiro, pelo menos da ilha de Santiago, e o último relojoeiro, provavelmente de todo o país. Dentro de pouco tempo será mais um reformado. Mas hoje, como amanhã, ironicamente, Malaquias Vaz vai continuar a não usar relógio.

Um abraço certinho

Fernando Peixeiro


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