Mais um grande cabo-verdiano

Caro amigo

Já jogaste o Sim City? Em que crias e geres uma cidade? O bom, como de qualquer jogo, é que quando te fartares reinicias e começas tudo de novo. Agora uma vida? Começar do zero assim tipo aos 20 e tal anos? Não te parece fácil. Vou contar-te um caso.
Lembrei-me de te falar dele a propósito do Dia Mundial do Teatro, que foi ontem. É de um homem do teatro que te falo, um homem que esteve quase quase a acabar, aí em Lisboa, um curso de engenheiro agrónomo, e que um dia, farto daquela vida de andar a correr para a faculdade e para uma escola onde dava aulas, comprou um bilhete só de ida e foi parar ao Mindelo, onde vive até hoje.
Assim. Numa semana vendeu tudo o que tinha, deu o gato a uma vizinha, meteu-se num avião e só parou na ilha de S. Vicente. Cabo Verde. Um país que não conhecia, um país que nem sabia bem apontar num mapa. Trazia na cabeça apenas as palavras do pai, sobre o Mindelo, e as imagens de um amigo, músico, cabo-verdiano, embora nascido também ele aí em Portugal.
É de João Branco que te falo. Filho do cantor José Mário Branco e da actriz Isabel Alves da Costa, que nasceu por acaso em Paris, onde os pais eram refugiados políticos, mas que tem nacionalidade portuguesa, embora também tenha a de Cabo Verde, porque é um cabo-verdiano que se sente.
Filho de actriz, criado atrás dos palcos da Comuna, foi esse bichinho do teatro que trouxe aqui para S. Vicente. Há 15 anos. E os resultados? Olha… 40 peças de teatro, 350 espectáculos.
Foi ele quem criou o grupo de teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, onde é director artístico, quem impulsionou o Mindelact, um festival internacional de teatro, dos mais conhecidos, quem criou em Cabo Verde o “Março mês do teatro”.
Para que vejas a dimensão, no Mindelo há cinco companhias de teatro, caso único em Cabo Verde. Nasceram todas no Centro, todos foram alunos de João Branco, que ainda teve tempo de escrever um livro sobre a história do teatro em Cabo Verde, resultado de 10 anos de investigação, e dinamizou um centro de documentação e investigação no Mindelo, onde está catalogada e digitalizada toda a documentação sobre teatro, desde o tempo colonial até hoje.
Um homem simples, apaixonado pelo que faz. Encena Samuel Beckett e Shakespeare mas também autores cabo-verdianos, em português e crioulo. E gosta, naturalmente, de Portugal, especialmente do Porto e do seu futebol.
Mas é cabo-verdiano. “Não me sinto um emigrante português, sinto-me cabo-verdiano com raízes em Portugal”. Claríssimo. É por isso que posso dizer que conheci mais um grande cabo-verdiano.

Um teatral abraço

Fernando Peixeiro