Má sina

Caro amigo

Não sei bem o que te posso dizer hoje, tanto mais em que à hora que te escrevo não tenho Internet outra vez, coisa banal por aqui, como sabes. Mas também, a um domingo, terás coisas mais importantes para fazer, agora que o tempo está bom. Por cá, poderei estar na praia, a dormir, numa esplanada ou sei lá eu. Mas na Praia estarei, por certo. Com ou sem comunicações.
E elas, caro amigo, se são importantes num país qualquer ainda mais num arquipélago. Faz falta aqui, mas tanta falta, uma ligação capaz entre as ilhas. Por telefone, por barco, por avião… que sei eu… façam pontes, muitas pontes.
Mas quê? As ligações por avião, monopólio da TACV, já vimos que funcionam mal e porcamente. Vamos então de barco. Mas como se não há uma ligação decente que ligue as ilhas que estão mais próximas, pelo menos? De Santiago para o Maio, a ilha que está aqui mais perto, que até se vê, há um barco de pesca que vai transportando umas pessoas, agora que o Barlavento, o barco que todas as semanas (digo bem, todas as semanas) fazia a ligação, esmoreceu para os lados da ilha da Brava e por lá ficou, a esta altura rodeado de peixinhos.
E da Brava para S. Filipe, ali na ilha do Fogo ao lado? Pior ainda. Sabor de aventura, autêntico. Apanhas um barco para lá e podes regressar nesse mesmo dia, no dia seguinte ou uma semana depois. Para teres uma ideia, hoje mesmo, domingo, a televisão de Cabo Verde ainda não conseguiu mostrar uma única imagem da campanha eleitoral autárquica da ilha da Brava; e ela começou na quinta-feira.
E por certo que hoje mesmo também, a esta hora, haverá uma pessoa no Maio que sofreu um acidente e que precisava de ser transportada urgentemente para o Hospital de Santiago, que não pode esperar por um barco de pesca, por um avião, que se aterrar este mês já é muito bom, ou por um helicóptero, que se for comprado este ano não é mau.
Aqui, a única ligação fiável é mesmo entre o Mindelo e Porto Novo, S. Vicente e Santo Antão. Mas depois se quiseres ir a S. Nicolau? Do Sal para a Boavista? Da Boavista para o Maio? Ou se estas no Fogo e precisas de ir a um casamento em S. Nicolau?  Febre, malária, uma apendicite aguda? Está aí alguém? Alguém me vem buscar? Operação às cataratas? Não sei nadar!
E não é piada, um povo ilhéu, com muitas, muitas pessoas que não sabem nadar, e que, devias ver, enjoa em massa quando atravessa a banheira que é o mar entre S. Vicente e Santo Antão. E não estou a exagerar. Quando fiz a viagem pela primeira vez estranhei a profusa distribuição de sacos de plástico. Temi que a coisa ficasse brava ali pelo meio do canal mas a travessia foi, até, monótona. Por isso, por ela, não queria acreditar quando, no fim, uma horita depois, para aí 80 por cento dos sacos tinham sido usados, abandonados pelo chão por pessoas amarelinhas e ar profundamente triste.
Má sina ter nascido numa ilha e enjoar no mar, má sina viver num país que ainda não conseguiu unir os seus habitantes. E má sina que a única empresa que providencia serviços de Internet não seja fiável além de ser escandalosamente cara. Se vou morrer numa ilha porque não são capazes de me ir buscar a tempo ao menos que me deixem despedir da família. De graça, já agora. Poupem-me a mais essa dor de cabeça. De escolher entre pagar as despedidas ou o funeral.

Um isolado abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Má sina”

  1. 1 Kida Irina

    Parabéns! Para uma pessoa que nunca esteve em Cabo Verde, esta é a realidade que as pessoas defrontam no seu dia a dia e tudo com a esperança de que um dia a solução chegue.
    A vida é esta, muitos morrem ao tentar pensar em melhorar a situação e outros param com tempo vendo os barcos de pesca irem à vida ou na maior parte das vezes desaparecerem ou irem à costa do Brasil. A solução seriam investir em novas embarcações, mas não para ter o exemplo da Moura Company, comprar barcos de rio para os mares de Cabo Verde.
    Olha que eu disse “novas”!
    Obrigada pelo lindo texto e parabéns mais uma vez.
    pode até ser má sina, mas aqui ficamos com o olhos no horizonte e “nadando” sobre a esperança.
    Abraços

Leave a Reply





PARCEIROS